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19/04/2018

A monitorização através da troponina deve ser realizada em todos os pacientes em pós-operatório de cirurgia não cardíaca?

Resenha elaborada pela pesquisadora Maria Cláudia Guterres

Sabe-se que os pacientes submetidos à cirurgia não cardíaca apresentam risco de complicações cardiovasculares maiores. Nas últimas décadas, houve avanços significativos na cirurgia não cardíaca para o tratamento de doenças e para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes. Apesar de seus benefícios, a cirurgia não cardíaca está associada a eventos cardiovasculares maiores (ou seja, morte de causa vascular, infarto do miocárdio não-fatal, parada cardíaca não-fatal e acidente vascular cerebral não-fatal). Uma das formas de identificarmos essas complicações é através do marcador cardíaco chamado troponina.

Para estimarmos os riscos dessas complicações nesse período, realizamos a avaliação perioperatória. Ela consiste em um conjunto de procedimentos médicos realizados antes, durante e após a cirurgia com o objetivo de minimizarmos a incidência de tais complicações. Uma das ferramentas validada na literatura e utilizada na prática clínica é o Escore de Risco Cardíaco Revisado (RCRI). Ele consiste de 6 fatores de risco com pesos iguais e estima o risco de complicações em baixo (nenhuma ou uma variável), moderado (duas variáveis) ou alto risco (maior ou igual a três variáveis). De acordo com as diretrizes atuais, pacientes de baixo risco não precisam de monitorização intensiva no pós- operatório devido à baixa incidência de desfechos cardiovasculares.

Em 2014, o estudo VISION (coorte multicêntrica internacional) demonstrou que a elevação isolada da troponina foi um preditor independente de eventos adversos cardíacos e de mortalidade no pós-operatório de pacientes submetidos à cirurgia não cardíaca. A partir de então, criou-se a definição de lesão miocárdica após cirurgia não cardíaca (MINS) que é mais ampla do que a definição de infarto do miocárdio (IAM), pois inclui não apenas o infarto, mas também às demais lesões miocárdicas relevantes no perioperatório. Os centros brasileiros que participaram desse estudo foram o Hospital de Clinicas de Porto Alegre (HCPA) e o Hospital do Coração em São Paulo (HCOR) entre o período de setembro de 2008 a julho de 2012.

Nosso estudo intitulado “O valor prognóstico da troponina em pacientes submetidos à cirurgia não cardíaca no Brasil” foi uma subanálise do estudo VISION que analisou os dados da população brasileira. Ele demonstrou não apenas a associação entre o aumento da troponina e o aumento da mortalidade, como também identificou os preditores independentes para MINS.

A incidência de MINS em 30 dias de pós-operatório de cirurgia não- cardíaca relacionou-se também a maior tempo de internação hospitalar. Os preditores independentes de MINS identificados nessa população foram idade maior ou igual a 75 anos, Diabetes Mellitus, hipertensão arterial sistêmica, insuficiência cardíaca congestiva e/ou doença arterial coronariana e insuficiência renal.

Destaca-se que, diferentemente da literatura, observamos uma incidência de desfechos cardiovasculares significativamente alta nos pacientes de baixo risco pelo RCRI, levantando o questionamento de que muitos eventos estejam sendo subestimados na prática clinica. Quando realizamos uma subanálise nos pacientes de baixo risco (nenhuma variável e uma variável) submetidos à cirurgia de baixo risco, identificamos uma baixa incidência de MINS somente no grupo com nenhuma variável, sugerindo que apenas esse subgrupo de pacientes não necessite de monitorização de troponina no pós-operatório de cirurgia não cardíaca.

 

Edição: Luiz Sérgio Dibe

 


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