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30/01/2019

Um ano de desafios para o desenvolvimento científico no Brasil

A missão de divulgar ciência está estabelecida como um dos três pilares de atuação do INCT IATS, juntamente com a Pesquisa e a Formação de RH, e tem como um de seus principais patrimônios de memória e Transferência de Conhecimentos para a Sociedade o jornal digital IATS News. Tendo completado oito anos com edições mensais, o veículo de ATS distribuído a gestores, pesquisadores e profissionais de saúde faz neste volume uma retrospectiva do último ano, além de apresentar uma visão para 2019 e convidar mais leitores a inscrever-se pelo e-mail leitoriatsnews@gmail.com.

Para a coordenadora-geral do INCT IATS, Professora Doutora Carisi Anne Polanczyk (foto acima), a perspectiva de que não se amplie a quantidade de recursos públicos destinados à Ciência, Tecnologia e Inovação e o aumento no contingenciamento dos recursos orçados pela União impulsionam o principal desafio para a pesquisa no país. "Não há sinalização de que o atual governo terá um posicionamento diferente do anterior, que definiu o atual orçamento. O que temos é a correta expectativa de que sejam cumpridos os acordos de financiamento que vinham sendo honrados. Portanto, os principais desafios para os próximos anos são manter a parcela pública de participação no desenvolvimento científico e tecnológico e também reinventar o modelo de captação de verbas factíveis, o que pode ser feito, por exemplo, através de parceiras público-privadas", aponta a pesquisadora.

Carisi acredita que é possível organizar mais grupos produtivos através da atuação em rede e sob cooperação entre instituições, potencializando os recursos disponíveis. "Também é muito importante redirecionar o olhar sobre a pesquisa, transferindo o foco atualmente centrado na formação de recursos humanos para um diálogo mais próximo com as reais necessidades da sociedade. É possível fazer pesquisa que traga reconhecimento científico, tanto aos pesquisadores, quanto para suas instituições, mas que contenha também componentes de relevância social. Pensar na pesquisa como meio de desenvolvimento intelectual, cultural, técnico, social e econômico para contribuir com soluções para os desafios do Brasil", define a coordenadora-geral do INCT IATS.

 

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA PERMITE DECISÕES COM BASE EM DADOS E PROTEGE SOCIEDADE DAS "FAKE NEWS"

Coordenador adjunto do INCT IATS, o Professor Doutor Antônio Luiz Pinho Ribeiro (foto abaixo) destaca que a divulgação científica é importante para a sociedade e para os cidadãos, na medida que, ao receberem as informações sobre o estado da arte do conhecimento, eles podem tomar decisões sobre as ações da vida cotidiana baseada em dados e resultados científicos, não em preconceitos ou informações falsas. "Esta função muito primordial da divulgação científica parece mais importante no mundo de hoje, já que as notícias falsas (fake news) têm sido espalhadas de forma direta pelas redes sociais e têm impactado de forma profunda na capacidade das pessoas de tomarem as decisões corretas para si e para seus familiares e entes queridos. Um exemplo são as notícias falsas sobre falsos riscos elevados de autismo relacionados à vacinação de crianças, que tem levado a pais de todo o mundo a não vacinarem seu filhos, colocando-os em risco de doenças infeciosas potencialmente graves e fatais. A divulgação de informações científicas claras sobre este assunto e muitos outros semelhantes, obtidos por pesquisadores independentes, é essencial para evitar tais decisões equivocadas", observa o pesquisador, que coordena atividades de Telemedicina e chefia o Centro IATS na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Com relação às ações em pesquisa realizadas no INCT IATS, Pinho Ribeiro considera ser muito importante que se divulgue resultados da efetividade das estratégias de saúde e dos custos envolvidos, para que os cidadãos e formuladores de políticas de saúde possam participar das decisões de quais diagnósticos e tratamentos podem e devem ser incorporados na prática de saúde cotidiana, seja do sistema público, seja na saúde suplementar. "Como o financiamento da ciência, no Brasil e no mundo, é em grande parte financiada pelos governos, com recursos públicos, a divulgação ainda é uma de retorno à sociedade do investimento realizado. O cidadão tem o direito de saber a importância da pesquisa que, como contribuinte, ajudou a financiar. Por fim, divulgar ciência é uma forma de educação, para diferentes faixas etárias e grupos sociais", define o coordenador adjunto do INCT IATS.

 

SUPERAÇÃO DE DESAFIOS DEPENDE DA PARTICIPAÇÃO ATIVA DA SOCIEDADE

"A sociedade não deveria nunca abrir mão do seu papel ativo nas decisões quanto a investimentos em áreas essenciais para o seu desenvolvimento, como é a gestão da saúde. Tornam-se portanto, prioritárias, as ações da comunidade científica dirigidas a estimular e garantir a participação social no processo, desde o estabelecimento dos problemas prioritários a serem abordados pelos pesquisadores, até a incorporação final do novo conhecimento devidamente traduzido em benefícios para a sociedade".

A afirmação é da Professora Doutora Maria Regina Fernandes de Oliveira (foto abaixo), coordenadora do Centro IATS na Universidade de Brasília, que define como desafios prioritários para CT&I em 2019 a realização de diagnóstico dos problemas de saúde mais relevantes da população, no qual tem se avançado tendo como pano de fundo o ideário do Sistema Único de Saúde, para o direcionamento de políticas do setor;  o envolvimento dos atores sociais no processo de construção das prioridades e das demandas; o fomento ao desenvolvimento/aperfeiçoamento de tecnologias e inovações sociais; e, por fim, o financiamento oportuno para as ações prioritárias.

"Nesse último ponto, discute-se cada vez mais o papel do Estado como o principal financiador de CT&I; considero o papel do Estado brasileiro essencial para o fomento e regulação das ações em CT&I, ouvindo a sociedade. Então, esse talvez seja o principal desafio a partir de 2019:  que a sociedade mantenha no seu foco uma postura de reivindicação quanto ao papel do Estado brasileiro, que é um papel constitucional, em relação ao ordenamento das políticas e fomento à CT&I", argumenta Maria Regina. "Destaco, especialmente, a necessidade de uma política voltada para o desenvolvimento/aperfeiçoamento de tecnologias e inovações sociais, pois sem impacto social estaremos apenas mantendo um sistema de CT&I excludente e mantenedor de desigualdades. Há que se mudar a ordem economicista que tanto alicerça o setor produtivo em CT&I, para um ordenamento social. Além disso, uma política de Estado que garanta a participação da sociedade", complementa a pesquisadora.

 

DIVULGAR CIÊNCIA

Pesquisadora do IATS, da Fiocruz de Pernambuco e coordenadora do MERG (Grupo de Pesquisa da Microcefalia Epidemica - Microcephalt Epidemic Research Group), Celina Maria Turchi Martelli (foto abaixo) conduziu estudos, entre 2015 e 2016, os quais confirmaram a relação entre a manifestação de microcefalia em bebês e a infecção de vírus Zika nas gestantes.

Tal atividade colocou, à época, a pesquisadora e seu grupo no centro das atenções. Era um momento no qual o episódio epidemiológico de infecções por Zika direcionava o interesse do conjunto de veículos de Comunicação Social brasileiros e estrangeiros para as ações em assistência e pesquisa empreendidas no Norte e Nordeste do país para dar respostas à sociedade, apreensiva pelo grande número de nascimentos de crianças com malformação congênita de microcefalia.

Pela projeção nacional e internacional dos fatos, o trabalho da pesquisadora e de seu grupo foi reconhecido pela Revista Nature, que distinguiu Celina como uma das dez personalidades que mais contribuição ofereceram à ciência naquele ano. O MERG prossegue com outras investigações. Convidada para uma breve entrevista, a Professora Doutora falou sobre a importância da divulgação científica. Leia:

IATS News - Qual sua visão sobre a importância de divulgar ciência à sociedade? É uma prestação de contas? Representa colaboração para o desenvolvimento social? Sua avaliação?

Celina - Interessante a sua pergunta pois vem ao encontro da preocupação atual sobre o (des)crédito das evidências e métodos científicos por uma parcela da sociedade. Acredito que a exposição clara da linha de pesquisa, da metodologia empregada, das questões éticas envolvidas; além da apresentação dos resultados com as potenciais aplicações, possibilitam estabelecer um canal de comunicação e intercâmbio com a sociedade.

Além de divulgar os achados, trata-se de uma exigência formal e faz parte do processo de transparência de nossa atuação científica. Também precisamos das contribuições da sociedade, incorporando sugestões e críticas mais amplas, fora do nosso círculo/bolha acadêmica. Portanto, mais que uma simples prestação de contas, temos muito a aprender com as contribuições da comunidade em geral e desse intercâmbio depende não só a produção do conhecimento, mas também o seu potencial de implementação dos resultados e da própria continuidade da pesquisa científica, particularmente na área de saúde.  

IATS News - Qual a perspectiva e os desafios para 2019?

As perspectivas para o desenvolvimento de pesquisa e formação de recursos humanos em pesquisa parecem bastante desfavoráveis pela narrativa do governo atual e pelos cortes de recursos financeiros anunciados. O compromisso na divulgação da importância de continuidade das pesquisas; na formação de pesquisadores e no fortalecimento das redes de pesquisa instituídas constitui-se, a meu ver, como um dos maiores desafios de curto prazo para a comunidade científica brasileira.

 

RETROSPECTIVA IATS News

Em 2018, as edições do jornal IATS News abordaram diferentes temas, os quais podem ser revistos na lista que segue abaixo. Clicando sobre a imagem, você poderá acessar a edição e realizar a leitura completa das reportagens e entrevistas. Acompanhe nossas edições e curta o IATS na rede social: www.facebook.com/iatsaude.

 

NEWS 84

MANCHETE: Para o novo dirigente da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), a urgência individual e a comoção social devem ser consideradas como elementos componentes do processo decisório, mas não devem se sobrepor à garantia de acesso a tecnologias em saúde eficazes, seguras e que tragam um incremento em saúde e qualidade de vida com relação às alternativas já existentes no SUS. Leia a entrevista na qual o farmacêutico Arthur Brito também destaca a importância das evidências científicas geradas em processos de Avaliação de Tecnologias em Saúde e reconhece a necessidade de capacitar mais profissionais para a atividade de ATS.

 

NEWS 85

MANCHETE: Instituições públicas e privadas do planeta gastam cerca de U$ 100 bilhões ao ano para reparar danos ocasionados por cyberataques, fraudes e outras ameaças à integridade da organização. Definir estruturas para evitar e saber como reagir diante de uma situação destas protege a imagem da instituição e pode resultar em significativa economia, aponta a pesquisadora Ana Paula Beck da Silva Etges (IATS). Conheça o estudo “A Proposed Enterprise Risk Management Model for Health Organizations”, que apresenta modelo para o gerenciamento de riscos em organizações de saúde, em artigo publicado em janeiro pelo periódico britânico Journal of Risk Research.

 

NEWS 86

MANCHETE: O Mestrado Profissional em Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), que mantém o período de inscrições aberto até o dia 14 de abril, chega a sua terceira edição consolidando-se como um instrumento para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação no Brasil. “Diferente da pós-graduação acadêmica, a pós-graduação profissional deve gerar um produto diretamente aplicado na solução de um problema prático, vivenciado pelo profissional ou pela organização onde trabalha”, explica a coordenadora do Mestrado, Leila Beltrami Moreira (UFRGS/HCPA), destacando que o curso, em duas edições, oportunizou a produção de inovações.

 

NEWS 87

MANCHETE: Estudo recentemente publicado "Disease and Economic Burden of Hospitalizations Attributable to Diabetes Mellitus (DM) and Its Complications: A Nationwide Study in Brazil" revela que internações por diabetes e complicações dela decorrentes são mais caras que internações não relacionadas à doença e suas comorbidades. Enquanto o custo médio para hospitalização de um indivíduo adulto custou R$ 1.240,75, o custo médio de uma hospitalização por diabetes e doenças relacionadas custou aproximadamente 19% mais, atingindo o valor de R$ 1.478,75 reais. Leia, em entrevista com coatora do estudo, informações úteis para a gestão dos recursos do SUS.

 

NEWS 88

MANCHETE: O diabetes custa quase R$ 30 bilhões por ano para o Brasil. É o que revela o estudo econômico realizado em cooperação entre Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e INCT/IATS. Os custos diretos somaram R$ 12 bilhões em despesas médicas e R$ 6,4 bilhões em gastos de pacientes e suas famílias com itens como alimentos dietéticos e transporte. Custos indiretos estão calculados em R$ 11,4 bilhões e demonstram a perda de produtividade por incapacidade para o trabalho e aposentadoria precoce de brasileiros. A conta, desta forma, atinge R$ 29,9 bilhões.

 

NEWS 89

MANCHETE: O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Avaliação de Tecnologia em Saúde (INCT/IATS) abriu prazo de inscrições para a 3ª Edição do Curso de Metodologia em Avaliação de Tecnologias em Saúde. A iniciativa integra as ações de capacitação de recursos humanos para a saúde pública do país, especialmente profissionais e gestores que atuam com decisão sobre incorporação de tecnologias ao SUS. A formação tem carga de 90 horas e ocorre na modalidade de ensino a distância (EaD). A elaboração do conteúdo e a estrutura de aprendizagem atendem ao modelo de atuação profissional exigido pelo Ministério da Saúde e pela OMS. Saiba como participar.

 

NEWS 90

MANCHETE: Pacientes com coinfecção de tuberculose e HIV constituem um custo oito vezes maior do que pacientes com HIV e tuberculose latente ou livres da coinfecção. São US$ 1.429,00 por episódio de doença para coinfectados versus US$ 166,00 para o outro grupo. Deste cálculo, estima-se que 73% se referem aos custos indiretos, representando US$ 749,00 apenas em perda de renda pela incapacidade para trabalhar a cada ocorrência da doença, o que demonstra o dano pela carga econômica sobre a sociedade. Os dados recentemente publicados apontam para a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de prevenção e tratamento da coinfecção TB/HIV.

 

NEWS 91

MANCHETE: Doença diretamente relacionada com a falta de saneamento, a esquistossomose promove um custo social de R$ 136.087.909,29 ao ano no Brasil. É o que aponta estudo "Qual é a carga de uma doença em eliminação no Brasil? O caso da esquistossomose mansoni", o qual teve artigo publicado em maio pela revista Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. "A esquistossomose é uma doença negligenciada e associada à pobreza. Estudos que estimem seu impacto na sociedade são essenciais para manter seu enfrentamento como prioridade de saúde pública", define a pesquisadora Gilmara Lima Nascimento, representante do IATS na UnB.

 

NEWS 92

MANCHETE: "Municípios brasileiros que alcançam resultados melhores para a saúde da população são aqueles que mais investem em ações de atenção primária e que possuem as coberturas mais abrangentes em programas multidisciplinares através da Estratégia de Saúde da Família". A afirmativa, que pode não impressionar os estudiosos desta matéria, é resultado de uma das recentes intervenções em pesquisa clínica realizadas com uso de grandes bancos de dados analisados por computadores através de ferramentas de Machine Learning. Conheça o trabalho de pesquisador que ministrou aula para o IATS, em Porto Alegre, apresentando um novo olhar sobre pesquisa e gestão em Saúde.

 

NEWS 93

MANCHETE: O consumo de alimentos ultraprocessados está diretamente associado à proporção do índice de massa corporal, da circunferência abdominal e à presença da obesidade, um dos principais fatores de risco para o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), de acordo com o artigo "Consumption of ultra-processed food and obesity: cross sectional results from the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil) cohort (2008–2010)". Informação decorre de evidência científica obtida a partir do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA- Brasil), que completou 10 anos de atividades, com homenagens e 229 artigos com evidências para a saúde pública do Brasil. Conheça.

 

NEWS 94

MANCHETE: A obesidade é responsável por cerca de 5% de todas as mortes no mundo e está entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. Além disso, é um dos três principais encargos sociais globais, junto com o tabagismo e a violência armada, tendo seu impacto econômico calculado em cerca de US$ 2 trilhões anuais para o planeta. Em recente revisão sistemática da literatura, publicada em artigo pelo Jornal da Sociedade Brasileira de Pediatria, pesquisadores do IATS apontam que há carência de evidências científicas sobre o tema, o que pode explicar a dificuldade para elaboração de estratégias eficientes contra este grave problema de saúde pública.

 

NEWS 95

MANCHETE: Em entrevista exclusiva para IATS News, a chefe de Gabinete da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Dra. Maria Inez Gadelha, defende que o enfrentamento da judicialização deve ocorrer pela permanente criação, pelo fortalecimento e pela disseminação de bases científicas para suporte da Magistratura brasileira. Maria Inez destaca que o Brasil é o país com maior número de discussões por acesso na Justiça, apesar de possuir um sistema universal. Ela revela, contudo, que cerca de 75% dos processos são ajuizados por pacientes da saúde suplementar e adverte que os excessos individuais estão colocando em risco o direito coletivo conquistado com o SUS. Boa leitura.

 

Textos e edição: Luiz Sérgio Dibe