English
- +

30/11/2018

Estudo aponta carência de evidências para o enfrentamento da obesidade na infância

A obesidade é responsável por cerca de 5% de todas as mortes em todo o mundo e está entre os principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. Se a sua prevalência continuar na atual trajetória, quase metade da população adulta do mundo estará com sobrepeso ou será obesa até 2030. Além disso, a obesidade é um dos três principais encargos sociais globais gerados por seres humanos, junto com o tabagismo e a violência armada, tendo seu impacto econômico calculado em cerca de US$ 2 trilhões anuais para o planeta.

Em recente revisão sistemática da literatura científica existente sobre o tema, pesquisadores do IATS identificaram que há carência de evidências científicas sobre benefícios a longo prazo para intervenções relacionadas à prevenção e ao tratamento da obesidade infanto-juvenil. Mais que isso, constataram que as intervenções para prevenir ou reduzir a obesidade em crianças e adolescentes geralmente mostraram pouco ou nenhum efeito sobre o peso ou índice de massa corporal, embora o perfil cardiovascular possa ser melhorado. Os resultados estão publicados no Jornal da Sociedade Brasileira de Pediatria, em artigo intitulado Overview of meta-analyses on prevention and treatment of childhood obesity.

Autora do estudo, a Doutora Luciana Bahia, pesquisadora do IATS na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, explica que a grande quantidade de estudos encontrados durante a revisão reforça a relevância do tema na atualidade. “Foram quase cinco mil artigos. Mais da metade deles foi publicada nos últimos cinco anos, o que demonstra a crescente preocupação, em nível mundial, sobre o grave problema de saúde pública representado pela obesidade na infância”, relata a pesquisadora.

Na avaliação feita verificou-se que há abordagens bastante diversas sobre intervenções alimentares e para o estímulo da prática de exercícios físicos. Segundo a pesquisadora, há bons trabalhos, porém não existe nenhum tipo de padronização pela qual se possa tirar boas conclusões sobre benefícios. “As intervenções intervenções múltiplas, que incluíam dieta, exercícios, ações para reduzir o comportamento sedentário e programas envolvendo a escola ou a família mostraram melhores efeitos positivos, porém a curto prazo”, aponta Luciana Bahia.

A endocrinologista e pesquisadora do IATS diz considerar que os resultados das ações governamentais na atualidade não estão sendo suficientes para conter o aumento na prevalência da obesidade. “Isso fica evidente diante do quadro crescente de crianças e adultos com sobrepeso e obesidade no nosso país. Estamos perdendo esta luta”, conclui.

 

 

CRIANÇAS COM OBESIDADE SE TORNARÃO ADULTOS DOENTES

A prevalência de sobrepeso e obesidade na infância aumentou substancialmente em todo o mundo em menos de uma geração. Alguns países de baixa e média condição socioeconômica, apresentam aumento similar ou mais rápido da obesidade infantil do que nos chamados países desenvolvidos, apesar de continuarem apresentando altos níveis de desnutrição.

No artigo Overview of meta-analyses on prevention and treatment of childhood obesity, pesquisadores do INCT IATS alertam que o incremento na prevalência de obesidade infantil contribui para o avanço das doenças crônicas não transmissíveis, com ênfase para doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e outras comorbidades.

“Crianças com obesidade serão adultos doentes. Há uma necessidade urgente de identificar medidas preventivas e terapêuticas, com intervenções que possam ser direcionadas a crianças e suas famílias”, diz a pesquisadora.

Segundo ela, apenas adotar uma dieta alimentar saudável ou praticar atividade física por um período de tempo delimitado não é suficiente. “Intervenções mistas demonstraram melhores efeitos, mas o impacto a longo prazo dos tratamentos da obesidade de crianças e adolescentes ainda não está claro. Há, no entanto, uma visão de que as abordagens envolvendo toda a família, com o exemplo de vida saudável vindo dos pais tende a ser mais bem sucedida”, define Luciana Bahia.

A professora afirma ainda que diminuir o “tempo de tela”, ou seja, restringir o acesso da criança ao entretenimento audiovisual por TV, videogame, tablet ou smartphone também constitui uma ótima estratégia. Outra sugestão é de que a família estimule seus pequenos a alternar a diversão eletrônica com brincadeiras tradicionais como jogar bola, andar de bicicleta, pular corda, brincar de amarelinha e outros divertimentos típicos de nossa cultura.

LINK PUBMED: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30121174 

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe