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13/09/2018

MedTrop2018: Sarampo coloca Brasil em reemergência

Pesquisadora Ana Marli Sartori, representante do IATS no Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, apresenta relato sobre o 54º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop 2018), que ocorreu de 2 a 5 de setembro de 2018, em Recife/PE.

 

Reemergência do sarampo: desafios das doenças imunopreveníveis

"O sarampo é uma doença viral aguda, altamente contagiosa, transmitida por secreções expelidas ao tossir, espirrar, falar ou respirar. Pode ocorrer em qualquer idade, porem é mais grave, podendo ser fatal, em crianças menores de um ano de idade e desnutridos. A doença é caracterizada por febre, exantema (manchas vermelhas no corpo) (Figura 1), tosse, coriza e conjuntivite. Uma vacina efetiva e segura está disponível há 50 anos", descreve a pesquisadora.

Figura 1. Exantema do sarampo

Fonte: MS. http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/sarampo

 

"No Brasil, até a década de 1990, o sarampo foi importante causa de morbimortalidade, com alta incidência e letalidade. Em 1992, foi implantado o Plano Nacional de Eliminação de Sarampo, sustentado em ações de imunização, na vigilância epidemiológica e no diagnóstico laboratorial da doença. Com o aumento da cobertura vacinal de rotina, nos anos 1990, e a realização de campanhas de vacinação de seguimento (10 campanhas realizadas de 1993 a 2015), houve redução da taxa de incidência da doença (Figura 2) e eliminação da transmissão autóctone do sarampo no Brasil, em 2001, e nas Américas, em 2002. Entretanto, a doença continua ocorrendo em várias regiões do mundo, principalmente na Europa (que registrou 41 mil casos de sarampo apenas no primeiro semestre de 2018) e na África, e casos ocasionais continuaram a ocorrer no Brasil, em geral em pessoas que retornavam de viagens internacionais ou em seus comunicantes. De 2013 a 2015, houve um surto em Pernambuco e no Ceará, com registro de mais de 1.300 casos confirmados em todo o país. O surto foi controlado com ações de intensificação da vacinação nos dois estados. Em setembro de 2016, o Brasil recebeu a certificação da eliminação da transmissão do sarampo da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a região das Américas foi declarada livre do sarampo", aponta Ana Marli.

"Em 2016 e 2017, não foram notificados casos da doença no país, porém em fevereiro de 2018, novo surto de sarampo foi detectado em Roraima. Até 03/09/2018, foram notificados 472 casos suspeitos em Roraima, com 301 confirmados laboratorialmente, e taxa de incidência de 67,8/100.000 hab. A maioria dos casos se concentra na capital Boa Vista e nas cidades de Amajari e Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. O surto se estendeu ao Amazonas, onde foram notificados 9.196 casos suspeitos de sarampo, com 1.232 confirmados laboratorialmente, e taxa de incidência de 34,3/100.000 hab. A maioria (80%) dos casos foi registrada em Manaus. Também ocorreram casos no Rio de Janeiro (18), Rio Grande do Sul (18), Pernambuco (4), Pará (2), São Paulo (2) e Rondônia (2), totalizando 1.579 casos confirmados no país (até 03/09/2018) e ultrapassando o número de casos registrados durante o surto de 2013-2015", prossegue o relato.

Figura 2. Incidência do sarampo e estratégias de controle. Brasil 1967-2017

Fonte: CG/PNI. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/abril/25/Estrategias-de-Controle-e-Incidencia-do-Sarampo-Brasil.pdf

 

"No surto atual, a entrada do vírus do sarampo no país ocorreu principalmente a partir da Venezuela que, desde julho de 2017, enfrenta um surto da doença, com 3.545 casos registrados e 62 óbitos (até 20/08/2018). Mas ocorreram também casos importados da Guiana e da Argentina (detectados em Roraima) e do Líbano (em São Paulo). O genótipo identificado foi o D8 idêntico ao que está circulando na Venezuela e, em um caso de viajante procedente da Europa, o genótipo B3. Quanto à distribuição dos casos por faixa etária, em Roraima há maior concentração de casos em <1 ano, grupo que não tem recomendação de vacinação de rotina (34% dos casos confirmados e taxa de incidência de 643,8/100.000 hab.) e na faixa de 1-4 anos (33%), seguida da faixa de 15-19 anos (10%). No Amazonas, também há maior concentração de casos em <1 ano (23,6% dos casos confirmados e taxa de incidência de 375,4/100.000 hab.) e na faixa de 1-4 anos (17,5%), seguida do grupo de 20-29 anos (22,1%) e 15-19 anos (12,3%)", qualifica a pesquisadora.

Segundo Ana Marli, atualmente o calendário de imunização infantil do Programa Nacional de Imunizações (PNI) recomenda uma dose vacina tríplice viral (SCR, de sarampo, caxumba e rubéola), aos 12 meses. A segunda dose é feita com a vacina tetra viral (SCR e varicela), aos 15 meses. Todas as crianças, adolescentes e adultos até 29 anos devem ter pelo menos duas doses da vacina tríplice viral comprovadas no cartão de vacinação, e adultos de 30 a 49 anos, pelo menos uma dose da vacina tríplice viral. Profissionais de saúde de qualquer idade devem ter duas doses da vacina tríplice viral. As únicas contraindicações ao uso da vacina são imunodepressão e gestação (neste caso a vacina deve ser programada para o pós-parto). "Nos últimos dois anos, houve redução das coberturas vacinais no país, assim como redução da homogeneidade (proporção de municípios que alcançaram a meta de 95% de cobertura), permitindo o acúmulo de suscetíveis, o que provavelmente contribuiu para o surto atual. Quando as coberturas vacinais são altas (=95%) e homogêneas, mesmo que ocorram casos importados, a transmissão não se sustenta. Entretanto, as coberturas da vacina tríplice viral caíram de 96,1%, em 2015 e 95,4% (2016) para 84,9%, em 2017; e as coberturas da tetra viral caíram de 90,2% (2015) para 77,4% (2016) e 79% (2017). Nenhum estado alcançou a meta mínima de cobertura vacinal de 95%", qualifica.

Para ela, além da queda das coberturas vacinais, os indicadores de qualidade da vigilância das doenças exantemáticas também mostram redução da taxa de notificação dessas doenças em 2017 e 2018, bem como redução da investigação adequada dos casos. "Considerando a situação epidemiológica e a elevada transmissibilidade da doença, há risco de disseminação do sarampo para outras regiões do país. Portanto, é importante a sensibilidade dos profissionais de saúde em detectar oportunamente um caso suspeito de sarampo, bem como realizar a notificação e as ações de controle relacionadas ao caso. Em resposta ao surto, os estados de Roraima e do Amazonas iniciaram campanha de intensificação da vacinação, tendo como alvo a população de >6 meses até 49 anos de idade. Além disso, em agosto foi realizada Campanha Nacional de Vacinação de Poliomielite e Sarampo, que teve como alvo todas as crianças de 1 a <5 anos, independentemente da situação vacinal. Esta estratégia visa reduzir suscetíveis, reduzir falhas vacinais e aumentar a proteção de rebanho da população, sendo importante vacinar todas as crianças desta faixa etária, mesmo que tenham esquema de vacinação de rotina completo. A cobertura alcançada foi de 85% e a campanha foi prorrogada até o dia 14/09/2018, nos estados que não alcançaram a meta de imunizar 95% das crianças de 1 a <5 anos", alerta Ana Marli Sartori.

 

Edição: Luiz Sérgio Dibe