English
- +

30/08/2018

Esquistossomose custa R$ 136 milhões ao país

Doença diretamente relacionada com a falta de saneamento, a esquistossomose promove um custo social de R$ 136.087.909,29 ao ano no Brasil. É o que aponta estudo "Qual é a carga de uma doença em eliminação no Brasil? O caso da esquistossomose mansoni", que teve artigo publicado em maio pela revista Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. O trabalho também analisou os anos de vida impactados pela incapacidade provocada pela doença e estimou os anos de vida ajustados pela mudança na qualidade de vida do indivíduo.

"A esquistossomose é uma doença negligenciada e associada à pobreza. Estudos que estimem seu impacto na sociedade são essenciais para manter seu enfrentamento como prioridade de saúde pública", define a pesquisadora Gilmara Lima Nascimento (foto abaixo), integrante da unidade do Núcleo de Medicina Tropical e representante do INCT IATS da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo ela, estudos que mensuram a carga da esquistossomose em termos econômicos e por meio de medidas-resumo comparáveis são praticamente inexistentes no país. Para uma doença relacionada à pobreza, como a esquistossomose, os custos públicos não são seus únicos impactos econômicos. "Doenças relacionadas à pobreza participam de um ciclo dinâmico em que a doença é consequência da pobreza enquanto contribui para manutenção ou piora das condições socioeconomicas das pessoas", explica.

A pesquisadora conta que, a partir das coleta de dados iniciada em 2015, o estudo realizou um exercício metodológico para estimação dos Anos de Vida Ajustados por Incapacidade. O estudo de QoL foi realizado a partir de entrevistas a pacientes em acompanhamento das repercussões das formas digestivas da doença no Ambulatório de Esquistossomose do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (AE/HC/UFPE). Foram aplicados dois questionários de QoL para os quais já existem adaptações culturais para o Brasil e escores de utilidade obtidos a partir de estudos com populações brasileiras (EQ5D3L e o SF36/SF6D).

"Também foi aplicado um questionário com questões socioeconômicas. O estudo de custo da doença foi realizado na perspectiva do Sistema Único de Saúde e também da sociedade. Na catergoria de custos diretos sanitários foram incluídos os itens relacionados ao diagnóstico e tratamento dos casos de infeção e das formas hepatoesplênicas e neurológicas, registrados no Sistema de Informação do Programa de Controlde da Esquistossomose (SISPCE), no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e no Sistema de Informação de Internações Hospitalares (SIHSUS)", relata.

Gilmara destaca que o estudo apurou informações na forma de custeio misto. Na categoria custos diretos não sanitários foram incluídos os custos com cuidador e transporte para os casos com a forma grave da doença. Os custos indiretos foram estimados por meio do método do capital humano, valor atribuído ao "tempo econômico" perdido por morte prematura e afastamento do trabalho durante a internação e tempo para recuperação, da proporção de casos graves economicamente ativos. O exercício metodológico do DALY foi realizado por meio do "hazard based model", sendo identificadas as sequelas e seus respectivos pesos referentes à esquistossomose mansoni para a infecção, forma hepatoesplênica e forma neurológica.

Leia a íntegra do ARTIGO.

 

ESTUDO ANALISOU INCAPACIDADE E PERDA DE QUALIDADE DE VIDA

Conforme a pesquisadora Gilmara Lima Nascimento, o número de casos utilizado para calcular o DALY e sua distribuição segundo forma clínica foi estimado levando-se em consideração os indicadores operacionais do PCE dos dez anos anteriores ao estudo, a prevalência estimada no Inquérito Nacional de Esquistossomose, a distribuição de casos segundo sexo e faixa etária do SINAN. No AE/HC/UFPE foram entrevistados 147 pacientes, 92 (62,6%) do sexo feminino, com idade média e mediana de 55  anos (DP +/- 11; intervalo de 20-60), 79 (53,7%) tinham nenhuma ou muito baixa escolaridade (analfabetos ou tinham 1ª e a 4ª série do ensino fundamental),116 (78,9%) declararam-se pretos ou pardos e a renda familiar mediana foi de R$: 1.200,00 (77,00 -7.000,00).

A média do escore de qualidade de vida, baseada em preferências entre os pacientes entrevistados foi de 0,7121, com desvio padrão de +/- 0,1546, sendo 0,2109 o escore mínimo encontrado e 1 (um) o máximo. Foram estimados 26,69 QALY para a população do AE/HC/UFPE que gerou o escore de qualidade, e 31,26 QALY para a população com as formas crônicas digestivas da esquistossomose no Brasil.

No estudo de custo, considerando os casos ou eventos registrados nos sistemas de informação esquistossomose, internação e mortalidade, o custo total da esquistossomose foi estimado em R$: 136.087.909,29, 94,61%  foram custos indiretos. "O escore de qualidade dos pacientes crônicos com a forma digestiva pode ser maior do que o estimado no estudo nos cenários onde não há diagnóstico e tratamento adequado das repercussões das doenças. A carga econômica estimada da esquistossomose mansoni no Brasil foi considerada elevada, tendo e o seu caráter preventivo, com meios disponíveis para seu controle. O impacto maior foi relacionado à perda de produtividade. Os achados do presente estudo corroboram seu status de doença negligenciada e relacionada à pobreza", descreve a autora.

Para ela, os resultados do estudo podem ser utilizados para o planejamento das prioridades em áreas endêmicas. Estudos adicionais seriam importantes para compreender as perdas de saúde e econômicas de outras fases da doença, uma vez que esta tem um grande polimorfismo e a qualidade de vida aferida foi apenas para as formas digestivas avançadas e compensadas por tratamento.

Além de Gilmara Lima Nascimento, integraram o estudo os pesquisadores Helio Milani Pegado (Núcleo de Medicina Tropical), Ana Lúcia Coutinho Domingues e Ricardo Arraes de Alencar Ximenes (IATS/Universidade Federal de Pernambuco), Alexander Itria (IATS/Universidade Federal de Goiás), Luciane Nascimento Cruz (IATS/CNPq) e Maria Regina Fernandes de Oliveira, coordenadora da unidade do INCT IATS, na Universidade de Brasília.

Saiba mais sobre a ESQUISTOSSOMOSE.

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe