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26/10/2017

Pesquisa investiga aplicação da Telemedicina em Cardiologia

A aplicação de recursos tecnológicos capazes de colocar uma pessoa dentro de uma estrutura de serviços, como numa loja ou mesmo num restaurante, sem que ela precise se deslocar fisicamente até este local, está cada vez mais presente nos diversos aspectos da vida e, sobre isso, não restam dúvidas. Entretanto, a inserção deste potencial tecnológico em algumas atividades tradicionais, como na atenção em Saúde, eventualmente produz questionamentos. Isso ocorre não apenas pelas especificidades da atividade, mas também pela força do que representa o vínculo de confiança estabelecido entre paciente e equipe médica, o que habitualmente acontece pelo frequente contato presencial nas consultas.

Cuidar do coração, então, pode ser considerado como um desafio ainda mais ousado. Todavia, a Telemedicina tem se apresentado como uma ferramenta tecnológica capaz de auxiliar no manejo de casos nos quais a atenção primária demonstra-se eficiente o bastante para assegurar bons cuidados. Tal tarefa envolve habilidades de gestão, articulação entre assistência básica e especializada, aplicação de tecnologia da informação e, por fim, atuação em pesquisa clínica para busca de evidências científicas que comprovem o real benefício e a segurança deste modelo..

Diante deste cenário desafiador, o Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde (IATS) está próximo de apresentar os resultados de um estudo, iniciado em maio de 2014, cujo objetivo é avaliar a efetividade do uso de teleconsultoria para o manejo, através da regulação entre atenção primária e terciária, de pacientes com doença coronariana crônica, porém estável.

Na prática, o projeto TeleDAC busca avaliar se pacientes cardiopatas, com condição clínica estável verificada após mais de um ano de atendimento no Ambulatório do Serviço de Cardiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), poderão prosseguir seus cuidados em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), sendo assistidos por médicos generalistas que podem, sempre que colocados diante de uma dúvida, acessar o suporte especializado de um cardiologista através da teleconsultoria prestada pelo TelessaúdeRS.

“Os resultados preliminares apontam para segurança e efetividade do uso da teleconsultoria no processo de assistência aos pacientes. Além disso, indicam que a transferência destes pacientes para a atenção básica ajuda a desafogar a fila de espera por consultas no hospital e geram uma expectativa de que há disseminação de conhecimento pela interatividade mantida entre os clínicos gerais e os cardiologistas”, explica a pós-doutora em Epidemiologia e pesquisadora do IATS, Karen Ruschel (foto, à direita).

Segundo ela, a coleta de dados proveniente do acompanhamento de 272 pacientes pelo estudo durante um ano se encerrará em 24 de novembro. “A partir desta data, daremos início à análise das informações obtidas em extensos questionários e nos prontuários nos quais está registrado, em detalhes, para entendermos o que aconteceu com os pacientes encaminhados para as UBS, em comparação com aqueles mantidos no hospital, durante um ano de seguimento”, conta.

Karen revela que ingressam na Ambulatório do Serviço de Cardiologia, em média, dois novos pacientes por dia. A cada ingresso, são geradas demandas por exames e procedimentos específicos da especialidade, o que vai gradativamente constituindo uma condição de esgotamento da capacidade de atendimento no hospital. “Acreditamos que a utilização das novas tecnologias pode contribuir para a racionalização dos recursos disponíveis. No caso da Cardiologia, a alta para o serviço primário com suporte da teleconsultoria pode liberar o ambulatório hospitalar para os casos que realmente necessitam do serviço terciário”, afirma a pesquisadora.

 

ESPERA POR CONSULTA PODE DEMORAR MESES

A realidade no Ambulatório do Serviço de Cardiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) é de um permanente esforço para atender tantos pacientes quanto for possível, sob as melhores condições existentes num cenário que responde exclusivamente às demandas do Sistema Único de Saúde (SUS). “Trabalhamos com a expectativa de não deixarmos ninguém desassistido. Porém, a agenda tem um número finito de consultas. Quem buscar hoje (17 de outubro, dia da entrevista) o agendamento, conseguirá marcar somente para fevereiro”, lamenta a cardiologista Mariana Furtado (foto, à esquerda), médica do Serviço de Cardiologia e pesquisadora do IATS.

Ela explica que o TeleDAC identificou os potenciais participantes entre pacientes que haviam ingressado no Ambulatório após um grave evento, mantinham acompanhamento de seu estado de saúde, estando há mais de um ano sem nenhum sinal de piora. “São pacientes que retornam ao ambulatório para consultas periódicas nas quais, basicamente, relatam estabilidade clínica e renovam receituário de medicação. São pessoas que não necessitam mais de atenção terciária”, analisa a pesquisadora.

Mariana, contudo, ressalta que é primordial, após a alta dos pacientes, saber se estão adequadamente incorporados ao atendimento na UBS e se esta atenção está sendo resolutiva para os cuidados em saúde necessários. “Estamos investigando, juntamente com a efetividade da teleconsultoria, se a rede funciona ou não, se os médicos da atenção básica usufruem dos serviços do TelessaúdeRS e se o acesso à teleconsultoria está alinhado com as demandas na UBS. Ainda, se o manejo na atenção primária é o mesmo definido pelas diretrizes vigentes e se esse processo impacta positivamente na qualidade de vida do paciente, que deixa de se deslocar ao hospital para ser atendido mais perto de seu domicílio”, destaca.

A cardiologista assinala que estão entre as expectativas o manejo adequado de medicamentos, com ajustes quando necessário, e do controle dos fatores de risco, tais como hipertensão arterial, diabetes, colesterol e dislipidemia. “Poderemos mensurar o bom andamento das altas ao confrontarmos com a taxa de reencaminhamentos ao hospital”, pondera.

Para Mariana, a formação de evidências através do estudo definirá um novo olhar, com base científica, sobre quais tipos de casos devem realmente ser tratados em um ambiente hospitalar. “Hospital não consegue atender todo mundo. A destinação do serviço terciário é para casos graves, que oferecem risco à vida do paciente. É preciso fazer com que as pessoas entendam e é por isso que buscamos fundamentar este conceito através de evidências científicas obtidas da nossa realidade. Ou, senão, o sistema continuará falhando”, adverte.

 

CONGRESSO DEBATERÁ TENDÊNCIAS E IMPACTOS DA TELEMEDICINA

De 14 a 17 de novembro, pesquisadores e gestores debaterão as tendências e impactos da Telemedicina, no 8º Congresso Brasileiro de Telemedicina e Telessaúde, que ocorrerá no Centro de Eventos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Gramado/RS.

 

SAIBA MAIS SOBRE O TELESSAÚDE/RS

O TelessaúdeRS é um projeto de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As ações do projeto são dirigidas à população, por meio de apoio aos profissionais da atenção primária à saúde e dos demais níveis assistenciais do Sistema Único de Saúde. O projeto é coordenado por pesquisadores do IATS.

 

 

Edição e textos: Luiz Sérgio Dibe