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19/09/2017

Pesquisa aponta para tratamento unificado da hanseníase

Pesquisa envolvendo mais de 10 instituições nacionais e internacionais e liderada pelo Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília e pela Fiocruz em Brasília aponta vantagens para um novo manejo terapêutico em pacientes com hanseníase no Brasil. A conclusão do estudo é de que haverá mais eficácia se o tratamento, que hoje é dividido em duas formas - por seis e 12 meses -, for unificado em seis meses para todos os doentes com a mesma combinação de medicamentos. De acordo com os achados da pesquisa, a adoção do esquema terapêutico único em substituição ao atual protocolo atribui mais eficácia à intervenção clínica e facilita a recuperação dos pacientes.

Atualmente, explica o pesquisador Gerson Penna, diretor da Fiocruz em Brasília e Coordenador Geral do estudo, a classificação da hanseníase é realizada pelas equipes da atenção primária, quando o paciente se apresenta para consulta numa unidade de saúde. “A doença é classificada conforme a quantidade de o tipo de lesões que se apresentam na pele da pessoa. O problema é que esta avaliação exige conhecimento e experiência. Por isso, costumam ocorrer erros que prejudicam o melhor encaminhamento para este paciente”, explica o pesquisador.

Em seu guia sobre doenças da pele, a Sociedade Brasileira de Dermatologia define que a hanseníase é considerada do tipo “paucibacilar” no estágio inicial da doença, com um número de até cinco lesões de pele. Na outra forma de classificação, a hanseníase é considerada “multibacilar”. Isso ocorre quando há mais de cinco lesões, com manchas e placas pouco ou bem definidas, e ocorrência de quadros reacionais com maior frequência.

Hoje, o Ministério da Saúde recomenda, em consonância com os modelos de classificação e com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), dois tipos de tratamento.

Para a hanseníase paucibacilar é prescrito o tratamento poliquimioterápico, com a combinação de dois medicamentos (Rifampicina e Dapsona), durante seis meses. Já para a hanseníase multibacilar, o tratamento poliquimioterápico, com a combinação de três medicamentos (Rifampicina, Dapsona e Clofazimina), com duração de 12 meses. 

“A dificuldade de classificar o grau de desenvolvimento da doença tem ocasionado, em alguns casos, insuficiência terapêutica e, em outras circunstâncias, desperdício de medicamentos. Ao ofertarmos as três medicações (Rifampicina, Dapsona e Clofazimina) pelo período de seis meses para todos, estaremos simplificando o processo, e aumentando a efetividade do tratamento, sobretudo na atenção primária á saúde. A necessidade de classificação é eliminada, o que facilita diagnóstico, e a adequação do tratamento para o menor prazo concede mais qualidade de vida para os pacientes durante o período de recuperação”, destaca o coordenador do estudo.

Gerson Penna conta que o estudo foi conduzido por 10 anos, sob a metodologia de ensaio clínico randomizado, controlado, seguindo os mais rígidos padrões internacionais, acompanhando a trajetória de 853 doentes durante o período de seis anos. Os resultados finais foram publicados na edição de julho da revista PLOS Neglected Tropical Diseases, no artigo intitulado “Uniform multidrug therapy for leprosy patients in Brazil (U-MDT/CT-BR): Results of an open label, randomized and controlled clinical trial, among multibacillary patients” e apontam os benefícios decorrentes com a uniformização do modelo de tratamento. Recentemente, os resultados foram apresentados ao Ministério da Saúde. A OMS também publicou, entre suas quatro prioridades entre 2015 e 2020 reunir e avaliar as evidências cientificas para adotar, em escala mundial, o esquema único de tratamento, e sem duvida o estudo brasileiro, entre os quatro existentes, é o que reúne todo os parâmetros exigidos na moderna medicina baseada em evidências cientificas.

O “Estudo independente para determinar efetividade do esquema Uniforme de MDT de seis doses (U-MDT) em pacientes de hanseníase”, foi financiado pela parceria Decit/MS/ CNPq, e ao longo dos 10 anos foram publicados 12 artigos científicos, defendidos duas dissertações de mestrado e sete teses de doutorado diretamente relacionados ao desenvolvimento da pesquisa. Adicionalmente dezenas de apresentações das diferentes etapas do estudo foram feitas em congressos científicos nacionais de Epidemiologia, Dermatologia, Infectologia, Medicina Tropical e, nos congressos mundiais de Hansenologia em Hyderabad na Índia, em Salvador no Brasil, em Bruxelas na Bélgica e em Pequim na China. Construiu ainda um Biobanco, montado sob rígidos parâmetros internacionais, esse estudo ainda gerará outros manuscritos e continuará formando mestres e doutores.

Leia mais informações sobre Hanseníase no Portal da Saúde.

 

GERSON PENNA: é pesquisador e diretor da Fiocruz em Brasília

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe

Foto: cedida do acervo pessoal de Gerson Penna