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26/07/2017

GBD: Estudo global aponta avanço das DCNTs no Brasil

Responsáveis pelo planejamento e pela gestão da Saúde no Brasil devem revisar o foco das ações e da destinação prioritária de recursos. A avaliação é dos professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Maria Inês Schmidt e Bruce Duncan. Eles são pesquisadores do IATS e integram a iniciativa Global Burden of Disease Study (GBD), mais fiel retrato epidemiológico do planeta, que recentemente publicou uma nova série de artigos na Revista The Lancet, apontando o crescimento da obesidade e a alta prevalência de hipertensão e hiperglicemia como os principais fatores de risco para morbimortalidade no mundo.

“Ao longo das últimas décadas, mudaram bastante as doenças e fatores de risco responsáveis pela carga de doença mundial e também brasileira. O GBD permite entender esta mudança. Se um país deseja efetivamente minimizar a carga de doença, terá que entender estas mudanças”, sintetiza Duncan.

Para o pesquisador, a observação dos dados contidos nesta nova série de artigos é imprescindível para o planejamento das políticas públicas no Sistema Único de Saúde (SUS), as quais ele determina que deverão ser “inovadoras”.

Duncan explica que o GBD iniciou suas atividades por volta de 1990, sob a liderança da Organização Mundial da Saúde. Nos últimos anos, um grupo da Universidade de Washington, nos EUA, tem assumido a coordenação do Projeto. A iniciativa prosseguiu agregando pesquisadores do campo de Epidemiologia em diversos países, chegando atualmente a quase 200 nações relatadas e mais de 8 mil pesquisadores envolvidos no levantamento e na análise das informações que compõem o grande banco de dados do Global Burden of Disease Study.

“Trata-se da maior e melhor descrição epidemiológica das causas de mortalidade, sofrimento e riscos à saúde jamais experimentada anteriormente pelos pesquisadores do planeta. O GBD mostra, de forma padronizada e com livre acesso, as doenças e suas causas, indicadores de mortalidade relacionados a fatores de risco, informações por países e regiões do mundo, por sexo e idade, em um período de duas décadas e meia, além de outras variedades de dados possíveis”, aponta Duncan.

 

DALY: UMA ABORDAGEM INOVADORA

O professor Bruce Duncan destaca um dos aspectos mais inovadores desenvolvidos pelo GBD Study: a introdução da medida DALY (Disability-Adjusted Life Year) como metodologia para definir a carga de doença. A sigla em língua inglesa, que representa os anos de vida perdidos ajustados pela incapacidade, combina a carga de mortalidade com a carga de morbidade decorrente de sequela física ou mental das doenças, dor ou sofrimento psíquico, indisponibilidade das habilidades motoras ou sensoriais, e demais fatores que levam à perda da qualidade de vida.

"Na prática, significa que é possível calcular, com um indicador, o tempo de vida perdido pela morte e também pelo decréscimo da qualidade de vida e das funções sociais e econômicas antes da morte por uma doença. Isso permite estabelecer indicadores sobre as doenças e os riscos à saúde que serão mais abrangentes na análise dos impactos na sociedade", descreve Duncan.

O pesquisador do IATS recomenda a leitura dos artigos (facilmente localizados em texto integral pela busca “Lancet GBD 2015” / links no final da reportagem) e sugere a navegação no sistema GBD Compare 2015, onde é possível observar e estudar a coletânea de informações, sintetizadas em gráficos e dados quantitativos. “Todos os dados dos artigos estão disponíveis pelos infográficos deste site”, salienta Duncan.

Segundo ele, o manejo da ferramenta exige alguma dedicação num primeiro momento, mas logo a utilização se demonstra bastante prática. “Vale muito a pena investir algum tempo neste estudo, pois é uma base de dados importantíssima para quem está envolvido em decisões sobre saúde,” complementa.

Para conhecer, acesse em (https://vizhub.healthdata.org/gbd-compare/). Um dica importante e facilmente notável é que o GBD Compare 2015 separa as doenças em três grandes grupos (Figura 1). As doenças crônicas não transmissíveis, que englobam cardiovasculares, cânceres, diabetes, depressão, doenças respiratórias e renais crônicas (entre outras), estão representadas pela cor AZUL. As doenças infecciosas e materno-infantis, também identificadas como Grupo 1, onde constam tuberculose e HIV/Aids (entre outras), estão destacadas pela cor VERMELHA. As causas externas, que envolvem acidentes, violência e suicídio (entre outros), estão marcadas na cor VERDE.

 

Figura 1

 

ALERTA PARA O BRASIL

O pesquisador Bruce Duncan considera que o Brasil desencadeou uma grande transição epidemiológica e sua carga de doenças, a partir dos últimos 50 anos, através de ações que possibilitaram um melhor controle das doenças infecciosas e materno-infantis. Isso pode ser constatado com a análise sobre o GBD Compare 2015: o gráfico da cor VERMELHA reduziu sua dimensão (Figuras 2 e 3). Em 1990, as doenças infecciosas e materno-infantis eram responsáveis por 25,6% das causas de morte (233 mil mortes calculadas sobre indicadores do período). Em 2015, o grupo VERMELHO passou a representar 11,8% das causas de morte (160 mil), evidenciando uma significativa redução.

Por outro lado, o GBD apresenta um relevante alerta para a sociedade brasileira: as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) - representadas pela cor AZUL - tiveram um notável crescimento. Elas correspondiam, em 1990, a 59,6% das causas de morte (543 mil óbitos). Em 2015, passaram a ser 75,8% (1,03 milhão de óbitos). “Pior que isso, quando consideramos a carga total de morbidade, ou seja, decorrente de viver com doença, as DCNTs correspondem a quase 87%”, adverte Duncan.

Acidentes, violência e outras causas externas - indicados pela cor VERDE - ocasionavam 14,8% das mortes (135 mil óbitos) e baixaram para 12,4%, no mesmo intervalo de tempo.

 

Figura 2

 

Figura 3

 

CONTROLE DOS FATORES DE RISCO

Os pesquisadores do IATS integrantes do Global Burden of Disease Study (GBD) definem que a principal abordagem de saúde pública para minimizar a carga de doença é controlar os fatores de risco responsáveis. Com isso, diante da mudança das principais doenças, mudam também os papéis relativos dos fatores de risco.

Para os professores Bruce Duncan e Maria Inês Schmidt, frente o tamanho da carga das DCNTs é necessário redirecionar o foco da sociedade e da saúde pública para controlar seus principais fatores de risco: maus hábitos alimentares, sedentarismo, tabagismo e uso prejudicial de álcool, além das consequências como obesidade, hipertensão, hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue) e dislipidemia (distúrbio nos níveis de lipídios e/ou lipoproteínas no sangue).

“Estes fatores são muito mais determinantes para a composição da carga de doença, na atualidade, do que o mosquito de Dengue e Zika, a falta de saneamento, o sexo inseguro e a eventual falta de cobertura vacinal. As evidências científicas para isto são contundentes, e precisam ser observadas, compreendidas e transformadas em estratégias e prioridades nos sistemas de saúde”, determina Duncan.

A figura abaixo mostra a mudança, entre 1990 e 2015, das causas de morte no Brasil.

 

Figura 4 

 

AVANÇO DA HIPERGLICEMIA E DA OBESIDADE

De acordo com o GBD, em 1990 a hiperglicemia era o sétimo fator de risco responsável por mortalidade no país. Em 2015, quando a hiperglicemia passou a ser a quarta condição de risco. A obesidade também alçou posições no ranking dos fatores de risco relacionados à mortalidade. Em 1990, era a sexta condição, hoje é a terceira.

Hoje, no topo da lista de fatores de risco para o Brasil, em ordem de importância, estão riscos alimentares (consumo inadequado de grãos integrais, frutas, nozes e castanhas, verduras e legumes contra excesso de sódio, gordura trans, carne processada e bebidas açucaradas, entre outros); pressão alta, obesidade e sobrepeso, hiperglicemia, uso de álcool e drogas, tabagismo e hipercolesterolemia.

Apenas depois destes fatores, vêm desnutrição materno-infantil, poluição, sexo inseguro, água insegura e saneamento inadequado.

 

GBD PARA OS ESTADOS BRASILEIROS

Série recente de artigos publicados na Revista Brasileira de Epidemiologia utiliza dados do GBD para caracterizar a carga de doença e os fatores de risco em nível de Unidade Federativa brasileira. Até o final do ano, estes dados serão também disponíveis ao público via web. Mostrarão, por exemplo, que o Rio Grande do Sul, mesmo sendo um dos estados brasileiros com menor carga de mortalidade infantil, lidera os indicadores em termos de carga de doença devido às DNCTs.

A lista prossegue, em ordem decrescente com relação às doenças crônicas não transmissíveis, por Rio de Janeiro, Paraíba, Paraná, Minas Gerais, Pernambuco (502), Bahia, São Paulo, Ceará, Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Piauí, Maranhão, Alagoas, Goiás, Sergipe, Tocantins, Mato Grosso, Distrito Federal, Pará, Rondônia, Acre, Amazonas, Amapá e Roraima.

 

 

Bruce Duncan e Maria Inês Schmidt são pesquisadores do IATS e integram o GBD Study

 

MAIS LINKS PARA LEITURA DE ARTIGOS DO GBD:

1) Carga da doença e análise da situação de saúde: resultados da rede de trabalho do Global Burden of Disease (GBD) Brasil

2) Mortalidade e incapacidade por doenças relacionadas à exposição ao tabaco no Brasil, 1990 a 2015

3) Variações e diferenciais da mortalidade por doença cardiovascular no Brasil e em seus estados, em 1990 e 2015: estimativas do Estudo Carga Global de Doença

4) Fatores de risco relacionados à carga global de doença do Brasil e Unidades Federadas, 2015

5) Magnitude e variação da carga da mortalidade por câncer no Brasil e Unidades da Federação, 1990 e 2015

6) Doença cerebrovascular no Brasil de 1990 a 2015: Global Burden of Disease 2015

7) A carga de doença devido ao diabetes e à hiperglicemia no Brasil e seus estados: achados do Global Burden of Disease Study 2015

8) Health Effects of Overweight and Obesity in 195 Countries over 25 Years

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe