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13/04/2017

Depressão, tema destacado pela OMS no Dia Mundial da Saúde, desafiará a humanidade como a epidemia global mais importante dos próximos anos

Um quinto da população mundial teve ou terá, ao menos, um episódio de depressão ao longo de sua vida. Isso significa que quase 20% dos 7,2 bilhões de seres humanos - aproximadamente 1,5 bilhão de pessoas - já experimentou ou irá vivenciar uma experiência de sofrimento psíquico que supera a experimentação de sentimentos naturais à existência humana, como tristeza, angústia, desânimo, desalento, melancolia e abatimento.

Hoje, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 5% das pessoas no planeta sofrem com este transtorno mental, que incapacita o paciente para atividades produtivas e repercute negativamente sobre os familiares e as pessoas mais próximas ao indivíduo atingido pela enfermidade. Baseada nesta perspectiva, a OMS recomendou neste ano a adoção de um olhar especial, em âmbito global, sobre depressão, doença que prossegue permeada por estigmas, apesar dos avanços do conhecimento e do acesso à informação.

“A decisão da OMS de adotar este tema para repercussão global no Dia Mundial da Saúde tem um importante significado. A depressão está entre as doenças mais prevalentes do mundo e tem como característica ser altamente incapacitante. Porém, é uma doença de fácil diagnóstico e tratamento”, aponta o psiquiatra e professor da Universidade Federal de Rio Grande do Sul, Marcelo Pio de Almeida Fleck (foto). Assista ao VÍDEO, no qual o professor destaca a relevância da decisão da OMS. 

Pesquisador do IATS no campo da Saúde Mental, Fleck destaca que a visão da sociedade sobre a depressão deverá ser qualificada nos próximos anos, em virtude de uma projeção alarmante. “Temos, através de estudos, o indicativo de que, em 2020, a depressão será a segunda maior doença incapacitante no mundo, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Nos países desenvolvidos, será a primeira causa de incapacidade”, alerta.

Para o pesquisador, a humanidade está posta diante do desafio de se preparar para uma das maiores epidemias com as quais já se defrontou. “A doença mental sempre foi vista como uma situação diferente das doenças físicas. Em nosso tempo, contudo, temos uma nova consciência social e evidências científicas que colocam estas enfermidades no mesmo status das demais doenças. Para enfrentar esta perspectiva preocupante sobre a depressão nas próximas décadas, as sociedades terão que estruturar seus serviços de saúde, ainda muito frágeis na atenção à saúde mental, e também terão que definir mais investimentos para pesquisa e produção de novos conhecimentos”, conclui Marcelo Fleck.

 

Tratamento medicamentoso tem cerca de 70% de efetividade

Cerca de 70% das pessoas acometidas por depressão obtém bons resultados ao serem tratadas com medicamentos. “São geralmente quatro variações de remédios de uma mesma classe, que costumam ser prescritos, um de cada vez, e são mantidos ou substituídos de acordo com a resposta clínica de cada paciente”, conta o psiquiatra e professor de Medicina, Marcelo Fleck.

Esta tecnologia mais utilizada na atualidade, segundo ele, são os fármacos da classe denominada “Inibidores Seletivos de Recaptação da Serotonina”. Os ISRS aumentam a concentração extracelular do neurotransmissor serotonina, durante a sinapse (contato celular onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de um neurônio para outro), ao inibir a sua recaptação pelo neurônio pré-sináptico, aumentando o nível de serotonina disponível para se ligar ao receptor pós-sináptico.

“Essa concentração da serotonina faria com que o cérebro doente retomasse a comunicação através dos impulsos elétricos que conectam os neurônios, interrompendo o processo da depressão”, explica o professor.

O pesquisador, no entanto, considera que em breve esta tecnologia deverá ser considerada obsoleta e será sucedida por novas formas de tratamento. Para Fleck, apesar do êxito obtido com o uso dos medicamentos ISRS, a base teórica utilizada para descrever o processo deixa dúvidas.

“Se a comunicação entre os neurônios restabelecida pela concentração de serotonina fosse a real explicação, o efeito deveria ser quase imediato ao uso da medicação. Porém, sabemos que o efeito desejado com o uso dos ISRS leva cerca de três semanas para ser verificado pelos pacientes, o que mantém um certo grau de incerteza sobre esta tecnologia, embora ela seja segura e tenha alto índice de sucesso em sua aplicação”, analisa.

Fleck acredita que haverá um “salto tecnológico” quando esta linha de fármacos for “refinada” e também quando outras classes de medicamentos estiverem aptas para serem utilizadas. "Algumas estão em processos experimentais, algumas apresentam muitos efeltos colaterais e precisam de mais estudo e acompanhamento", afirma. O pesquisador menciona como exemplos os fármacos que atuam no Eixo Hipotalâmico-Hipofisário-Adrenal e os medicamentos baseados no anestésico Ketamina, além de tecnologias não farmacológicas como a Estimulação Magnética Transcraniana e a Estimulação do Nervo Vago.


Sem resposta a medicamentos, 30% dos casos necessitam de outras formas de tratamento

O tratamento medicamentoso, exitoso total ou parcialmente para 70% dos pacientes com depressão, é ineficiente para o restante dos enfermos, que precisam conviver com o enfrentamento à doença e com o insucesso de até quatro tentativas frustradas de tratamento, cada uma delas por três ou quatro semanas, antes de nova avaliação clínica. Para estes casos, além da recomendação de psicoterapia, médicos investem numa prática que tem sido alvo de controvérsias desde o princípio do tratamento moderno da depressão: a eletroconvulsoterapia, conhecida no meio leigo como terapia de eletrochoques.

“A eletroconvulsoterapia é muito eficaz para casos de depressão profunda. Há volumosa quantidade de evidências científicas que comprova a utilização de ECT de forma ética e segura, embora devamos reconhecer que existe muita resistência devido ao estigma de que haveria a imposição de um sofrimento ao paciente que recebe este tipo de tratamento. Cabe à ciência e à medicina desmistificar as visões equivocadas colocadas sobre o uso dessa tecnologia”, argumenta o pesquisador do IATS, Marcelo Fleck.

Outra vertente que ganha força a partir da apresentação de novas evidências é a prática de atividade física estruturada para enfrentar os episódios depressivos. "Diversos estudos recentes, que cruzam conhecimentos da Medicina e da Educação Física, apontam para a melhora dos pacientes que adotam a rotina de exercícios como terapia contra a depressão", finaliza Fleck.

 

ARTIGOS E SUGESTÕES DE LEITURA:

1) World Health Day

2) World Health Organization Depression and Other Common Mental Disorder: Global Health Estimate. WHO, 2017.

3) Global, regional, and national life expectancy, all-cause mortality, and cause-specific mortality for 249 causes of death, 1980-2015: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2015. The Lancet 2016

4) Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2016 Clinical Guidelines for the Management of Adults with Major Depressive Disorder: Section 2. Psychological Treatments. Can J Psychiatry. 2016 

5) Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2016 Clinical Guidelines for the Management of Adults with Major Depressive Disorder: Section 3. Pharmacological Treatments. Can J Psychiatry. 2016

 

 

 

 

 

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe