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24/06/2016

O impacto da obesidade e o papel do governo

O impacto econômico da obesidade no mundo foi estimado em U$ 2 trilhões anuais por pesquisadores, com base em dados de 2014. Tal magnitude só pode ser comparada com os custos associados ao consumo de tabaco (U$ 2,1 tri) e com o impacto econômico causado por violência armada, guerras e terrorismo (U$ 2,1 tri). Responsáveis por uma série de estudos neste campo da ciência, pesquisadores do Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde (IATS) defendem que o Estado deve gerar políticas públicas de mediação da publicidade semelhantes às aplicadas no enfrentamento ao tabagismo para controlar a epidemia global de obesidade.

“A política pública de alerta sobre os riscos do tabagismo é uma experiência muito bem sucedida. Quando o consumidor compra sua carteira de cigarros ou tem acesso a uma peça publicitária, recebe junto o aviso de que o consumo de cigarros pode causar uma série de doenças e limitações em sua Saúde. Com os alimentos de alto teor calórico e baixo valor nutricional também deveria acontecer o mesmo tipo de intervenção. O mau comportamento alimentar expõe as pessoas ao risco da obesidade e do desenvolvimento de diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão e diversos tipos de câncer, que representam as maiores causas de mortalidade no planeta”, explica a professora Luciana Bahia, pesquisadora do IATS na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Segundo a pesquisadora, a estratégia de alerta sobre os riscos do tabagismo é um dos fatores que contribui para a redução de fumantes. “Segundo o VIGITEL em 2006, quase 16% da população brasileira era fumante. Esse percentual caiu para 10,8% em 2014, graças às ações de conscientização sobre os males do tabagismo e medidas governamentais de restrição ao consumo. Na contramão deste avanço, a obesidade teve significativo crescimento. Em 2006, a obesidade atingia 11,8% da população brasileira e, em 2014, o percentual elevou-se para 17,8%”, aponta Luciana.

Para ela, embora a discussão sobre comportamento alimentar seja “mais ampla” do que o debate objetivo sobre fumar ou não fumar, a sociedade precisa encarar este desafio. “Médicos e profissionais da Saúde têm se empenhado nisso, mas está sendo uma luta desigual. O impacto negativo na economia global e as consequências devastadoras da epidemia de obesidade para a Saúde Pública exigem um novo modelo de abordagem. Isso deve ocorrer não apenas como alerta sobre os riscos da má alimentação, mas também pela adoção de estratégias de incentivo ao consumo de comida saudável e prática de atividades físicas, como forma de fazer com as pessoas vivam mais tempo, com mais qualidade de vida e mais capacidade produtiva”, descreve Luciana Bahia (foto abaixo).

 

 

PUBLICIDADE DE ALIMENTOS E BEBIDAS

PRECISA SER MEDIADA PELO ESTADO

A proposta dos pesquisadores de que políticas públicas devem mediar o discurso social sobre alimentação e comportamento de consumo tem como principal objetivo equilibrar forças com a poderosa máquina de propaganda da indústria de alimentos. Conforme os pesquisadores, apesar de manter um discurso institucional de “engajamento” com a questão da Saúde, as empresas não adotam estratégias efetivas para redução de componentes não saudáveis e, tampouco, para estímulo ao consumo de alimentos mais nutritivos do que calóricos.

No artigo “Calories and Cents: Customer Value and the Fight Against Obesity”, que foi produzido pelo Grupo de Pesquisa sobre Obesidade da UERJ, em parceria com Prof David Gertner (Pace University, New York), os autores defendem: “Depois de décadas encorajando o aumento do consumo de produtos com baixo valor nutritivo, representantes da indústria de bebidas e alimentos afirmam que estão comprometidos com a luta contra obesidade. Tal seria evidenciado, por exemplo, por apoio a campanhas de interesse público para o aumento da atividade física e pelo lançamento de alternativas mais saudáveis e porções reduzidas de seus produtos, como versões sem açúcar ou gordura.”

A análise das estratégias de marketing, preço e promoção de vendas, examinadas pelos autores do artigo, revelam que as práticas da indústria continuam a estimular o aumento do consumo de produtos muito calóricos e pouco nutritivos, contribuindo para o aumento da obesidade. Eles defendem que a indústria necessita rever suas estratégias de criação de valor para o consumidor.

Ao mesmo tempo, apontam ser “crucial que consumidores, legisladores e a mídia sejam devidamente educados sobre certas estratégias da indústria, incluindo propaganda e promoções enganosas, que acabam por agravar este grande problema de Saúde Pública global: a obesidade.”

 

EPIDEMIA GLOBAL DE OBESIDADE EXIGE INTERVENÇÕES NO

COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR, ALERTA PESQUISADOR

A relação entre a epidemia de obesidade e o comportamento do consumo de alimentos e bebidas, estabelecida durante as análises científicas que conduziram ao artigo “Calories and Cents: Customer Value and the Fight Against Obesity”, levaram os pesquisadores envolvidos a estreitar a distância que havia entre as ciências da Saúde e da Comunicação. Para o coautor do trabalho professor David Gertner, parceiro em estudos do IATS na Pace University (NY/USA), é inadequado discutir cientificamente o tema da obesidade sem considerar as questões que impulsionam as pessoas a decidirem que tipo de alimentação irão adotar em seu hábitos de vida.

“O problema da obesidade, que se apresenta como o maior desafio em Saúde Pública na atualidade, está objetivamente ligado ao aspecto do comportamento. Isso significa que devemos levar em consideração a estrutura de Marketing utilizada para influenciar na decisão dos consumidores”, explica Gertner.

Para ele, novas estratégias de Comunicação devem ser adotadas. “Sobretudo no discursos publicitários dirigidos a crianças e adolescentes, que estão constituindo suas relações de consumo. Este discurso precisa ser pautado pelas questões da Saúde e do bem estar social, numa lógica semelhante ao discurso adotado sobre o tabagismo, cujo resultado tem se demonstrado positivo pela redução de fumantes no mundo”, justifica.

 

 

INDÚSTRIA DE ALIMENTOS MANOBRA DISCURSO, CRIANDO

ARMADILHAS EM TEXTO, IMAGEM E PREÇOS PROMOCIONAIS

Neste artigo recentemente publicado, exemplifica David Gertner (foto acima), os pesquisadores identificaram mais de 1 mil trabalhos que relacionam obesidade e Marketing, rastreando informações de cerca de uma centena de textos considerados relevantes para sua análise. Com base nestas informações, os pesquisadores concluíram: “A indústria vem declarando, em suas peças de Comunicação, que está comprometida com a luta contra a obesidade. Ao investigarmos, no entanto, reconhecemos que propaganda e material promocional não incentivam o consumo de comida saudável”, desvela Gertner.

O pesquisador destaca o exemplo das redes de Fast Food, que oferecem lanches e refrigerantes como principais pratos de seu cardápio. “Uma das principais marcas afirma gastar cerca de 20% de seu orçamento em publicidade para promover saladas e fazer com as pessoas tenham a sensação de que encontrarão opções saudáveis nas lanchonetes da rede”, conta.

Contudo, alerta Gertner, ao entrar numa loja, o consumidor irá se deparar com peças visuais que destacam os maiores sanduíches (com reproduções muito maiores do que a realidade) e com cartazes que mostram a vantagem de comprar o combinado de sanduíche com fritas e refrigerante. “A aquisição do combo sairá mais barata que a compra dos itens em separado”, descreve o professor, exibindo a contradição no discurso de Marketing da marca.

Essa mesma lógica, segundo ele, aplica-se ao escalonamento de preços por quantidade. “Um refrigerante de 150 mililitros custa, nos Estados Unidos (sede da marca), U$ 0,75; enquanto o valor para 2 litros é de cerca de U$ 1,00”, 

Para o pesquisador, a pressão econômica do preço menor impulsiona o consumidor a optar pela relação “mais comida por menos dinheiro”, lamenta.

De acordo com os pesquisadores, mais artigos estão sendo escritos para descrever informações sobre estudos acerca do mesmo tema e, em breve, poderão ser publicados.

 

 Acesse a Resenha da professora Luciana Bahia.

 Leia íntegra do Artigo "Calories and Cents: Customer Value and the Fight Against Obesity".

 

 

 

HOJE É O DIA DO LIXO

(CRÔNICA NA SAÍDA DE UM FAST FOOD)

"Hoje é o dia do lixo", conta a administradora Andrea Braga, 34 anos, enquanto caminha com o pacote de uma lanchonete fast food numa das mãos, pela avenida Borges de Medeiros, no Centro Histórico de Porto Alegre. Na outra mão, reluz um grande copo de sorvete, que é oferecido como opção de sobremesa para quem compra o almoço na loja de onde acaba de sair.

Como assim dia do lixo?, interroga o entrevistador, logo depois de confirmar que, no embrulho de papel, sob uma vistosa estampa da logomarca da loja, estão um hambúrguer e um envelope de batatas fritas.

"É o dia de comer comida bem gorda, bem trash, sem peso da consciência", explica a entrevistada.

Neste dia, definido com periodicidade semanal, segundo Andrea, não existe restrição calórica nem medição sobre o nível de saúde da refeição.

Ao seu lado, caminha a estatística Cecília Martins, 36 anos, que traz consigo um copo de sorvete, acompanhado de biscoitos recheados com geleia de fruta processada.

A escolha, garante Cecília, dá-se essencialmente pelo prazer de comer o lanche. "Não pensamos em equilíbrio, só no sabor", descreve.

A estatística é mãe de um menino de 4 anos. Revela que pretende estipular, para ele, um dia na semana para este tipo de consumo alimentar. "Ele ainda não se interessa, mas sei que vai chegar a hora de falar com ele sobre isso", compartilha. Depois se despede, diante de uma parada de ônibus.

Na fila de espera pelo coletivo, um homem jovem manuseia um desses pacotes pardos de lancheria. De dentro dele, saca um hambúrguer, com uma folhida pálida de alface, que dá o único colorido à cena.

Rafael Santos, 18 anos, conta que é estagiário numa "firma de contabilidade" e estuda "de noite". No intervalo entre uma mordida e duas, admite que não deveria optar por lanche, por passar "o dia fora de casa".

"Mas é gostoso e sai mais barato que um almoço. Olha só: sanduíche, batatinha e refri", calcula, exibindo sua refeição daquela quarta-feira.

Questionado sobre o efeito da propaganda na sua decisão, o rapaz lembra apenas que "as fotos são maiores que os lanches" e avalia que "não é justo", antes de sorrir e seguir viagem de volta para a labuta.

 

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe