English
- +

28/05/2014

ATS desafia obesidade na infância com apoio de mídias digitais

Estima-se que as doenças relacionadas ao sobrepeso e à obesidade demandarão gastos em saúde na ordem dos R$ 40 bilhões, na próxima década, no Brasil. Pior que isso: além de onerar as finanças públicas, também deverá afetar bem-estar, desenvolvimento pessoal e aptidão produtiva de milhares de brasileiros. De olho neste cenário, um estudo iniciado há cerca de dois anos busca reunir evidências científicas para testar como uma abordagem comportamental sobre crianças e adolescentes, reforçada com informação em mensagens de celular e redes sociais, poderia modificar o quadro de sedentarismo e alimentação inadequada para educar os jovens e prevenir a obesidade no país.

A divulgação sobre o estudo, conduzido na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) pelo Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde (IATS), ocorre num período próximo da notícia a qual aponta que o problema da obesidade estabilizou no país, após quase uma década de crescimento percentual entre a população. Atualmente, de acordo com o Ministério da Saúde, 50,8% dos brasileiros estão acima do peso ideal e, deste grupo, 17,5% são obesos.

Para o coordenador do trabalho no IATS, professor Denizar Vianna Araújo, a obesidade constituiu-se em uma grave questão de Saúde Pública, impulsionada pela prosperidade econômica dos brasileiros, desprovida de informação adequada sobre aspectos de qualidade de vida, tais como a necessidade de prática física e alimentação saudável. “Vivemos em um momento de bom acesso a bens de consumo, entre os quais estão muitas variedades de comida, algumas bem pouco saudáveis. Aliado ao quadro comum de sedentarismo, a alimentação inadequada promove condições para a obesidade e suas comorbidades”, indica o médico.

Denizar explica que, diante da percepção de que a essência do problema reside nos hábitos das pessoas, o grupo de pesquisadores elaborou a estratégia de abordagem comportamental. “Não podemos enfrentar a obesidade apenas operando estômagos de pessoas extremamente gordas. Temos que atacar na origem, modificando os hábitos da população, prevenindo doenças e promovendo saúde”, define o pesquisador.

Na prática, após a revisão da literatura científica e da pesquisa qualitativa que levou à formulação do método, o que ocorrerá é o atendimento clínico multidisciplinar para um grupo de estudantes, em escolas no município de Duque de Caxias, região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro (RJ). Eles serão assistidos por médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e educadores físicos. Além da atenção clínica, receberão sistematicamente mensagens de conteúdo técnico e motivacional para implementarem em suas vidas as mudanças necessárias. “O conteúdo será distribuído de forma estratégica, por mensagens de telefone móvel e por postagens em redes sociais, dentro da realidade de comunicação dos adolescentes”, detalha.

O objetivo é analisar a efetividade da nova tecnologia (atenção clínica somada a abordagem em telecom e mídia digital) através dos resultados obtidos pela mudança de comportamento entre os jovens participantes da pesquisa. O ensaio clínico ocorrerá no primeiro semestre de 2015 por um período estimado de seis meses. “A ideia é que as evidências científicas geradas no estudo possam orientar políticas públicas de alcance nacional, que poderão trazer benefícios importantes como mais saúde para a população e racionalização dos investimentos públicos”, conclui Denizar Vianna Araújo.

 

Jovens buscam qualificar saúde e imagem pessoal

De acordo com os pesquisadores, a escolha por abordar crianças e, sobretudo, adolescentes se deu em virtude da suscetibilidade à intervenção sobre questões relacionadas com a imagem pessoal, em especial, com o despertar dos jovens para a sexualidade.

Conforme Denizar Vianna Araújo, a pesquisa qualitativa prévia ao estudo principal abordou um grupo de adolescentes envolvidos com o enfrentamento do sobrepeso e da obesidade. “Alguns que perderam peso, outros que tentaram e não conseguiram atingir sua meta e outros que continuam obesos”, comenta.

O coordenador da pesquisa explica que, entre os fatores apontados como causas do insucesso dos jovens, predominaram causas externas. “Davam desculpas como ‘minha mãe não cozinha alimentos saudáveis’ e ‘minha academia fica muito longe de casa e por isso não consigo fazer exercício’, coisas assim”, relata.

Denizar e seu grupo de pesquisa entenderam que a melhor abordagem seria comportamental. “Além dos métodos clínicos convencionais, o fator diferencial poderá ser a abordagem motivacional sobre os benefícios de emagrecer, ter mais saúde e habilidade para praticar atividades físicas, enquadrar-se no modelo estético desejado, sentir-se bem”, assinala.

As crianças e adolescentes que participarão do Ensaio Clínico terão acompanhamento da equipe multidisciplinar em Saúde, acesso a consultas médicas, aconselhamento nutricional, recomendação sobre prática física, pesagem e avaliações.

 

Brasil é o segundo país no ranking mundial das cirurgias bariátricas

O Brasil realiza atualmente mais de 64 mil cirurgias bariátricas ao ano para tratar a obesidade, o que representa incremento de 800% em 10 anos (2001-2010), segundo o DataSUS. A obesidade pode ser definida como um excesso de gordura corporal acumulada no tecido adiposo, relacionada a consequências adversas para a saúde. Sua prevalência vem aumentando de forma alarmante nos últimos 20 anos, sendo essa condição considerada um problema de saúde pública. Estima-se que a população adulta mundial obesa (IMC > 30 kg/m2) já tenha alcançado a cifra de 400 milhões de indivíduos e que a população adulta com sobrepeso (IMC entre 25 e 30g/m2) esteja em 1,6 bilhões de indivíduos.

No Brasil, entre 1975 e 2003, ocorreu um aumento de 255% na prevalência de pacientes com obesidade mórbida (Santos, 2010; Vigitel, 2007). "Essas estimativas são preocupantes quando se considera a carga de doença associada à obesidade, que inclui hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemias, apneia do sono, doenças cardiovasculares, artropatias, colecistopatias, neoplasias e maior risco de morte por qualquer causa", salienta o pesquisador do IATS, André Ferreira de Azeredo da Silva.

"Paralelamente ao aumento na prevalência da obesidade mórbida na população brasileira, observou-se um expressivo aumento no número de cirurgias bariátricas reembolsadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com um incremento de quase 800% entre os anos de 2001 e de 2010 (DataSUS). Esse aumento possivelmente corresponde à grande demanda anteriormente não atendida por cirurgias para obesidade no Brasil, que hoje é o segundo país em número de intervenções desse tipo no mundo, com 64,4 mil cirurgias/ano, número superado somente pelos Estados Unidos, que realizam cerca de 300 mil cirurgias/ano. (Schmidt, 2011)", menciona o pesquisador em seu trabalho sobre o tema.

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe