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29/04/2014

ATS projeta meios para conectar gestor, profissional e paciente

Uma série de guias instrutivos e uma plataforma on-line para difundir o conhecimento e formar pessoas para o uso da ferramenta Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). Estes são alguns dos projetos no horizonte da Rede Brasileira de ATS (Rebrats) para 2014. A perspectiva, a qual possui como principal motivação a necessidade de transformar em práticas os conhecimentos produzidos por cientistas, foi revelada pelo coordenador-geral da Rebrats (Decit/Sctie/MS), Jorge Barreto, em entrevista para IATS News, na edição de abril. Segundo ele, é momento de aplicar a alta qualidade acadêmica dos estudos já realizados em decisões de gestores do SUS e em práticas de profissionais que, associadas, qualifiquem significativamente a atenção prestada nos serviços de Saúde Pública do Brasil.

Para Barreto, apesar do reconhecimento à consolidação da Rede de ATS, a transposição da elevada carga de informação científica em discurso palatável aos gestores e operadores da atenção em Saúde ainda é um grande desafio a ser cumprido. “Trata-se de uma barreira a ser superada. ATS produz estudos de alta qualidade, com refinamento metodológico e emprego de recurso humano muito sofisticado. Porém, sabemos como é preciso avançar na capacidade de comunicação com os operadores da saúde pública, para que gestores e trabalhadores tenham acesso aos benefícios gerados por essa alta qualidade de conhecimento gerado”, reconhece.

A autocrítica do chefe da Rebrats é oportuna. Acontece justamente no momento quando a Rede passará por uma avaliação criteriosa, com olhar investigativo e metodológico sobre seu desempenho. Barreto acredita que, desse estudo, surgirão indicativos claros sobre as estratégias a serem adotadas para os próximos passos de desenvolvimento da Rebrats. “Analisar a realidade, identificar as ações boas e as que precisam ser aprimoradas, apontar novos rumos. Embora a rede seja permanentemente avaliada, o protocolo de pesquisa aplicado nesta oportunidade irá conferir mais fidedignidade à avaliação. Será muito importante”, define Barreto.

Por outro lado, o coordenador-geral afirma, de maneira muito segura, que a Rebrats é um modelo por sua estratégia de articulação e capilaridade. “É um caso de sucesso em articulação. Agrega 68 instituições de perfis variados, cujas ações envolvem as três esferas da organização federativa (municipal, estadual e federal). Integra conselhos de gestores da saúde, hospitais, universidade, institutos e centros de pesquisa, instâncias governamentais diversas. Recentemente, agregou o Hospital Alemão Oswaldo Cruz e o Hospital Sírio-Libanês, instituições privadas de caráter filantrópico com alto potencial de contribuição ao desenvolvimento da rede e da saúde pública”, detalha.

Barreto indica que alguns dos planos para encurtar a ponte entre ciência e prática estão amadurecendo na Rebrats. Uma delas é a ideia de redigir guias de prática clínica, de elementos de gestão e implementação do saber de ATS no cotidiano do SUS. “Os guias já são utilizados pela OMS desde 2010 com bons resultados”, aponta. Outra novidade, segundo o chefe da Rebrats, é a proposta de criação de uma plataforma on-line, na qual gestores e profissionais terão acesso às informações científicas com linguagem simplificada para rápida assimilação e possibilidade de aplicação no trabalho. “Seria um ambiente virtual para difusão do conhecimento em ATS, mas seria principalmente um espaço de formação das pessoas para que usem este conhecimento em favor de seu trabalho e da atenção ao paciente usuário do sistema público de saúde”, descreve.

JORGE BARRETO: coordenador-geral da Rebrats

 

Fiocruz examina Rebrats para diagnóstico e melhorias

O impacto e as influências da Rede Brasileira de Avaliação de Tecnologias em Saúde (Rebrats) sobre a Saúde Pública do país estarão sob análise nos próximos três meses. Os objetivos, de acordo com a equipe de pesquisa e o Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (Decit/Sctie/MS), são produzir um diagnóstico sobre o uso de estudos científicos na tomada de decisão em relação a tecnologias no SUS, papel da Rebrats, e descobrir como a ação dos pesquisadores em relação aos estudos realizados impacta e influencia o Sistema.

O trabalho será realizado em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Conforme a pesquisadora do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz, professora Flávia Elias, avaliar impacto e influências da Rebrats é um desafio que implica na compreensão de que, nem sempre, as contribuições são explícitas ou acarretam objetivamente a incorporação de uma nova tecnologia. “Muitas vezes, os estudos norteiam pareceres técnicos em questões judiciais. Orientam manutenção ou suspensão de uma tecnologia já disponível e a formulação de diretrizes clínicas. Subsidiam políticas de reembolso de medicamentos. Confirmam as bases para planejamento de gestão hospitalar e de compras. Indicam a reformulação de políticas para ações coletiva, como imunização ou atenção pré-natal”, exemplifica Flávia, que coordena o trabalho juntamente com a professora Maria Aparecida Patroclo.

A pesquisadora Maria Aparecida, ao realizar revisão da literatura, identificou que embora ATS ainda seja um campo em desenvolvimento, há relevância reconhecida diante dos fatores conjunturais econômicos em diversos países. Para ela, a necessidade de otimizar  custos com tecnologias, pela escassez de recursos para sua incorporação, constitui elemento bastante favorável ao desenvolvimento e utilização dos resultados de estudos de ATS na tomada de decisões. “Já a carência de capacidade técnica e a demanda descontrolada apresentada por usuários e indústria compuseram fatores  desfavoráveis”, aponta Maria Aparecida.

A expectativa, segundo as pesquisadoras, é de que os resultados da investigação identifiquem se a literatura que influencia a tomada de decisão, bem como a ação proativa de pesquisadores e o banco de dados da Rebrats, estão presentes na articulação entre pesquisa científica e a prática no SUS. “Queremos definir de que forma a Rede pode ser fortalecida para benefício do Sistema de Saúde brasileiro. Por isso, solicitamos um esforço daqueles que desenvolveram inúmeros estudos via editais ou contratações diretas, tendo em vista a importância de se obter este diagnóstico”, conclui Flávia Elias. A divulgação dos resultados ocorrerá no segundo semestre desse ano. Contatos poderão ser realizados pelo e-mail felias@cdts.fiocruz.br.

 

Experiência em Piripiri (PI)

Quando secretário municipal de Saúde na modesta Piripiri, localizada ao Norte do Piauí, em 2010, o coordenador-geral da Rebrats Jorge Barreto implementou o Núcleo de Evidências em Saúde (NEv), uma experiência inovadora para o cenário nacional à época. O NEv foi organizado para promover o uso da evidência científica no amparo a tomada de decisão em gestão de Saúde no município.

O trabalho foi operacionalizado com a produção de “sínteses de evidências”, baseadas em revisões sistemáticas e estudos econômicos de custo-efetividade, as quais serviram para orientar a adoção de políticas públicas e o enfrentamento de problemas locais de Saúde. A iniciativa foi destacada na edição 24 da IATS News, em dezembro de 2012.

 

Texto e edição: Luiz Sérgio Dibe