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10/09/2013

" Médicos estrangeiros são bem vindos, desde que submetidos a um processo adequado de avaliação técnica e de regularização de sua prática profissional no país "

 

O médico internista e Doutorando em Epidemiologia (UFRGS e Universidade McMaster - Canadá) pelo projeto  Ciências sem Fronteiras,  Maicon Falavigna, fala sobre o avanço da pesquisa no Brasil e a situação da saúde com a vinda de médicos estrangeiros. 

 

1.Quais os novos conhecimentos na área, e como podem ser implantados dentro do sistema de saúde brasileiro?

 
Nos últimos anos houve avanços importantes no processo de desenvolvimento de recomendações baseadas em evidências; de ponto de vista prático, isso está relacionado à melhora da qualidade assistencial e racionalização dos usos de recursos em saúde. Em particular, minha experiência junto aos projetos DECIDE (Developing and Evaluating Communication Strategies to Support Informed Decisions and Practice Based on Evidence) e junto ao GRADE (The Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) Working Group será relevante para auxiliar no processo de desenvolvimento de diretrizes clínicas e de pareceres técnico-científicos, incluindo transmissão de conhecimento e capacitação de pessoal.
 
2.  Em termos de pesquisa, o que o Brasil ainda precisa melhorar e evoluir comparado a outros países? 
 
Comparado aos países desenvolvidos, a pesquisa no Brasil é relativamente recente e está em processo de desenvolvimento. Ainda há poucos profissionais qualificados trabalhando com pesquisa no país, e por vezes enfrentam problemas como subfinanciamento e entraves burocráticos. Formação, valorização profissional, financiamento adequado e diminuição da burocracia são pontos fundamentais para o desenvolvimento e consolidação da área. Acredito que iniciativas tomadas nos últimos anos - como a criação do IATS e o projeto Ciências sem Fronteiras - têm colaborado para o avanço da pesquisa no país. O Brasil parece estar no rumo certo, espero que esse processo, com iniciativas visando o desenvolvimento da pesquisa, seja contínuo e consistente.
 
 
3.  Você é a favor do incentivo à vinda de médicos estrangeiros ao Brasil?
 
Como médico e como cidadão, sou a favor de ações que incentivem a melhor distribuição geográfica dos profissionais no Brasil. Creio que a carência de profissionais em determinadas áreas seja apenas um dos fatores que comprometem a qualidade assistencial. Acredito que essas ações devam ser executadas em paralelo com outras iniciativas, como melhoria da estrutura dos serviços de saúde nessas localidades.  Na minha opinião, médicos estrangeiros são bem vindos, desde que submetidos a um processo adequado de avaliação técnica e de regularização de sua prática profissional no país.  
 
4. A transferência de conhecimento à sociedade e em especial aos gestores de saúde é importante em que sentido?  
 
Nas ciências da saúde, o objetivo final é melhorar a saúde da população, seja através da recomendação de práticas mais efetivas, seja através da racionalização do uso de recursos. Mesmo em áreas de pesquisa básica (por exemplo, bioquímica e fisiologia), os pesquisadores esperam que no futuro seus resultados possam ser utilizados em intervenções práticas com um potencial impacto clínico. Em áreas como a de Avaliação de Tecnologias de Saúde (ATS) esse link pode ocorrer de forma direta, com o objetivo principal sendo a rápida incorporação e implementação de suas recomendações nos serviços de saúde - função atribuída aos gestores, e não aos pesquisadores. Nesse caso, a pesquisa deve se adequar às necessidades dos gestores, e não o contrário, como usualmente é observado na pesquisa acadêmica. Dessa forma, acredito ser importante não só a transferência de conhecimento, mas a incorporação dos gestores no processo de produção de conhecimento, atuando em conjunto, por exemplo, na definição de prioridades em pesquisa e na avaliação da implementação das estratégias propostas. 
 
 
 
Jornalista responsável: Bruna Repetto