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05/04/2013

“Estima-se que uma mulher obesa apresente 12 vezes o risco de desenvolver diabetes, comparada a uma mulher com peso corporal dentro da normalidade"

Em entrevista sobre o Dia Mundial da Saúde, a professora da Graduação em Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Vivian Luft fala sobre a prevenção de doenças como hipertensão e diabetes através de hábitos saudáveis.
 
 
 
1. Quando se fala em promoção da saúde, há o incentivo à prática de atividades físicas e alimentação saudável. Estes hábitos podem prevenir quais doenças? São aliados também no tratamento? 

Vivian Luft - Como resultado da modificação nos padrões alimentares e de atividade física, o mundo tem sido marcado pela epidemia da obesidade. Alimentos industrializados ricos em açúcar, sal e gordura têm tomado espaço da alimentação tradicional caracterizada por grãos e vegetais. Ao mesmo tempo, a vida passa a se tornar mais automatizada com a urbanização e avanços da tecnologia. Como consequência, a obesidade assume taxas nunca antes observadas e continuadamente crescentes. Projeções indicam que se as tendências de aumento da obesidade continuarem, seus efeitos negativos sobre a saúde da população irão superar os benefícios ganhos com o declínio nas taxas de fumo, causando um prejuízo no padrão de ganho de expectativa de vida observado ao longo do último século.
Estima-se que uma mulher obesa apresente 12 vezes o risco de desenvolver diabetes, comparada a uma mulher com peso corporal dentro da normalidade. Para homens, esse risco para diabetes é estimado em cerca de sete vezes. Da mesma forma, o risco para doença arterial coronariana de um homem obeso equivale a duas vezes o risco de um homem de peso normal, e este risco é maior para mulheres obesas (cerca de 3 vezes).
Sendo assim, o aumento da atividade física, conjuntamente à redução no consumo de alimentos ricos em gorduras e açúcares (densos em calorias) podem prevenir o ganho de peso. No entanto, colocar esses objetivos em prática não é fácil e requer grandes alterações sociais e ambientais para efetivamente promover e dar suporte a escolhas saudáveis no nível individual.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda atividade física e alimentação saudável como fundamentais na prevenção e tratamento de doenças crônicas, em especial diabetes, doença cardiovascular e câncer.
Há de se considerar que há forte evidencia de que, por exemplo, diabetes pode ser prevenido (ou retardado) em pessoas de alto risco submetidas a aconselhamento para perda de peso e aumento da atividade física, enquanto que outras evidências, como que para a efetividade de intervenções uma vez que o diabetes esteja estabelecido, são menos claras (controle glicêmico e perda de peso intencional) ou inexistentes (que mensurem o impacto sobre complicações em longo prazo e sobre a qualidade de vida). No entanto, isso não deve ser visto como desincentivo para que ações sejam tomadas, pelo contrário, justificam a necessidade da intensificação na pesquisa e implementação de novas estratégias.


2. A ideia da campanha pelo Dia Mundial da Saúde no Brasil é sensibilizar a população para a construção de hábitos saudáveis no cotidiano. Como as pessoas podem verificar se estão tendo cuidados adequados?

VL - O Dia Mundial da Saúde é celebrado no dia 7 de abril, aniversário da OMS (fundada em 1948). A cada ano um novo tema é selecionado dentre as prioridades de saúde pública de interesse mundial. O tema para 2013 é hipertensão, sendo que, com isso, a OMS tem por objetivo prevenir a ocorrência de infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca.
Os principais cuidados para prevenção e tratamento da hipertensão incluem: redução no consumo de sal, ter uma alimentação saudável (rica em frutas e vegetais, evitando o consumo de embutidos, carnes processadas e alimentos com alta densidade calórica – como fast food), evitar uso abusivo de álcool, exercitar-se regularmente, manter peso corporal saudável e não fumar. A OMS encoraja o autocuidado, recomenda que a população adulta cheque sua pressão arterial e siga o aconselhamento profissional, e incita as autoridades locais e nacionais a criarem ambientes que possibilitem comportamentos saudáveis.
Um avanço nesse sentido foi marcado em 2011, com a assinatura de um termo de compromisso entre o Ministro da Saúde do Brasil e as associações que representam os produtores de alimentos processados, estabelecendo um plano de redução gradual na quantidade de sódio presente em 16 categorias de alimentos, começando por massas instantâneas e pães. Muito ainda precisa ser feito sobre a regulação da produção e marketing de alimentos ultraprocessados, nocivos à saúde não somente pela alta concentração de sódio, mas também pela alta densidade calórica e conteúdo de ácidos graxos trans e saturados.

 
3. Hábitos saudáveis têm um impacto econômico no sistema de saúde?

VL - É preciso considerar que além de reduzir a expectativa de vida (em 2 a 4 anos em obesos com Índice de Massa Corporal – IMC de 30 a 35 kg/m2 e em 8 a 10 anos naqueles com IMC de 40 a 45 Kg/m2), os danos à saúde gerados ao indivíduo também acarretam grandes prejuízos para a sociedade, direta e indiretamente. Maiores frequências de doenças e suas complicações levam a um detrimento na produtividade de trabalho, além dos elevados custos com tratamento. Mesmo países que hoje apresentam menores prevalências de obesidade já sofrem com as consequências do excesso de peso na saúde e economia. A China, por exemplo, em 2000 gastou 3,6% do seu produto interno bruto com custos relacionados à obesidade e estima-se que este valor subirá para 8,8% até 2025. Em países mais vulneráveis, isto pode comprometer o desenvolvimento não somente econômico, mas também social da população.
A OMS aponta como altamente custo-efetivas (gera um ano extra de vida saudável por um custo menor que a renda anual média por pessoa no país) intervenções que tenham por alvo a população como um todo: maiores impostos sobre tabaco e álcool, proibição de fumar em locais públicos e de trabalho, divulgação de informações e alertas, bem como campanhas, para reduzir o conteúdo de sal e substituir ácidos graxos trans por poli-insaturados, juntamente com programas de conscientização sobre alimentação de modo geral e atividade física. Outras abordagens de foco individual também custo-efetivas incluem triagem e tratamento medicamentoso para pessoas de alto risco para doença cardiovascular, triagem para câncer de colo de útero e imunização para hepatite B para prevenir câncer de fígado.






Jornalista responsável: Bruna Repetto