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10/10/2012

“Com o estabelecimento de um tratamento correto, a morbimortalidade provocada pela depressão poderia ser prevenida em até 70% dos casos”

 10 de outubro- Dia Mundial da Saúde Mental





Segundo a Pesquisadora e Pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Psiquiatria da UFRGS, Ana Flávia Silva Lima, os transtornos mentais ainda são considerados crônicos e muitas vezes mais incapacitantes que outras doenças físicas. A necessidade de um tratamento eficaz é fundamental a fim de proporcionar a recuperação dos pacientes, utilizando de forma adequada os recursos de saúde disponíveis pelo SUS. Ana Flávia destaca a importância da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) no processo de cuidados a doenças psiquiátricas. Recentemente foi criado o GATS-P (Grupo de Avaliação de Tecnologia em Saúde em Psiquiatria) com o objetivo de analisar custos de doenças e avaliar serviços de saúde.


Transtornos mentais acabam por gerar disfunções não só psicológicas e sociais como também desenvolver doenças psicossomáticas. Quais são os mais frequentes e que necessitam maior atenção?


Ana Flávia Silva Lima – Estima-se que 16% da população mundial irá apresentar algum transtorno mental ao longo da vida. No Brasil, infelizmente, ainda há uma carência de dados epidemiológicos em populações específicas, mas estima-se que os transtornos mais comuns são os transtornos de ansiedade com prevalências ao redor de 18%, seguidos dos transtornos depressivos com índices entre 3% a 10% e alcoolismo com taxas em torno de 8%. Um estudo recente realizado na cidade de São Paulo, incluindo uma amostra domiciliar representativa da população com 5.037 adultos, demonstrou que em torno de 30% dos entrevistados apresentavam algum transtorno mental nos últimos 12 meses. Os transtornos de ansiedade foram os mais comuns (afetando 19% da população), seguidos dos transtornos de humor (11%), transtorno de descontrole dos impulsos (4,3%) e abuso de substâncias (3,6%).  Um dado interessante desse estudo é que 1 em cada 10 moradores da cidade de São Paulo  apresentava  algum transtorno mental grave, sugerindo que há mais de um milhão de sujeitos com prejuízos relevantes. Isso demonstra a necessidade de um tratamento adequado aos transtornos mentais.


Como funciona o tratamento destes transtornos?


O tratamento dos transtornos mentais passa por várias etapas.  O primeiro passo é uma avaliação cuidadosa e criteriosa em relação à natureza dos sintomas descritos pelo sujeito, a fim de  detectar adequadamente o diagnóstico e estabelecer o tratamento a ser implementado. Frequentemente, são realizadas entrevistas com os pacientes e com os familiares para avaliação do quadro clínico apresentado. Apesar da evolução da psiquiatria, principalmente nos últimos anos, ainda não existem exames complementares (sangue ou imagem) específicos para a confirmação do diagnóstico, sendo a entrevista clínica ainda a principal ferramenta para a avaliação do quadro clínico. O segundo passo é a implementação de um tratamento adequado. Existem várias opções terapêuticas disponíveis, de acordo com as indicações para um determinado transtorno.  As opções mais utilizadas são o uso de medicações como os antidepressivos, os estabilizadores de humor, os antipsicóticos e os anticonvulsivantes para remissão dos sintomas, assim como o uso de abordagens psicoterápicas para reestabelecer o funcionamento psicossocial do paciente. Um dos grandes desafios no tratamento é a questão da aderência. Como os indivíduos, na maioria das vezes, necessitam de um tratamento prolongado, pela cronicidade dos sintomas, frequentemente ocorre abandono das intervenções, muitas vezes em fases precoces, prejudicando o retorno a um funcionamento  psicossocial saudável.


O que o gestor de saúde precisa entender sobre transtornos mentais para poder tomar decisões mais eficazes dentro do SUS?


O primeiro passo é o rastreamento adequado dos transtornos mentais. Por exemplo, em relação aos sintomas depressivos em serviços de cuidados primários, estima-se que 50-60% dos casos não são detectados e que o diagnóstico é realizado em média quatro anos após o surgimento dos primeiros sintomas. Com o estabelecimento de um tratamento correto, a morbimortalidade provocada pela depressão poderia ser prevenida em até 70% dos casos. Outra questão relevante é que os profissionais de saúde muitas vezes iniciam o tratamento para os sintomas psiquiátricos, mas não o fazem de forma adequada, gerando custos que poderiam ser evitados tanto para o SUS como para os usuários.  Portanto, os gestores de saúde devem tomar medidas que estimulem a detecção precoce dos transtornos mentais, assim como o tratamento adequado dessas situações, a fim de proporcionar a recuperação dos pacientes, utilizando de forma  adequada os recursos de saúde  disponíveis pelo SUS.  

Transtornos mentais devem ser tratados como um problema de saúde crônico, assim como as doenças físicas?


Sim, apesar dos avanços obtidos principalmente nas últimas décadas com a implementação de medicamentos mais modernos, que proporcionaram um alto impacto na qualidade de vida destes sujeitos, os transtornos mentais ainda são considerados crônicos e muitas vezes mais incapacitantes que outras doenças físicas. Por exemplo, a depressão é considerada uma das principais causas de morbidade no mundo, sendo considerada a quarta causa entre as doenças que mais provocam incapacitação, e será a segunda causa de sobrecarga até 2020.  Além dos prejuízos que provocam na qualidade de vida, os transtornos mentais são associados à perda de dias de trabalho e ao aumento da utilização de recursos de saúde. Esses sujeitos geralmente apresentam altos índices de comorbidades clínicas, baixos níveis de funcionamento e alto consumo de recursos médicos. Estima-se que sujeitos com depressão apresentam elevado consumo de serviços de saúde, excedendo as despesas médicas em até duas vezes mais que em indivíduos sem o transtorno.


De que modo a ATS auxilia no tratamento de pacientes? Recentemente foi criado um grupo de pesquisa, o GATS-P (Grupo de Avaliação de Tecnologia em Saúde em Psiquiatria), qual o principal objetivo?


Considerando o cenário atual na saúde onde há um aumento de demanda por novas tecnologias e recursos cada vez mais escassos, o uso de avaliações econômicas representa uma ferramenta de apoio ao processo de tomada de decisão nas políticas em saúde. O uso da ATS para avaliar as intervenções em saúde mental é relativamente recente no Brasil. De acordo com a base de dados da Rede Brasileira de Avaliação de Tecnologias em Saúde (REBRATS), estudos econômicos em psiquiatria representam apenas 5% dos estudos financiados pelo Ministério da Saúde e a maioria dos estudos utiliza  dados secundários coletados a partir da literatura internacional. Frente a escassez de  dados epidemiológicos, assim como da eficácia de diferentes tratamentos baseados em dados nacionais, torna-se mais difícil a priorização das tecnologias de saúde que necessitam ser inicialmente avaliadas e implementadas no campo da saúde mental.  Por esse motivo, em maio de 2012, como uma iniciativa para desenvolver linhas de pesquisa em economia em saúde mental, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ligados ao Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde (IATS), criou o GATS-P. O grupo é coordenado pela Dra. Luciane Cruz, sendo composto por psiquiatras e estatísticos e tendo parceria com outros pesquisadores da área de ATS no Brasil e no exterior. O objetivo do grupo é desenvolver avaliações de tecnologia em saúde para diferentes transtornos mentais, incluindo análises de custo das doenças, análises econômicas completas, medidas de desfecho em saúde e avaliação de serviços de saúde. No próximo mês, será publicado nosso artigo “Mental health economics: insights from Brazil” no periódico internacional Journal of Mental Health.
 






Jornalista responsável: Bruna Repetto