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18/07/2012

“A avaliação critica de novas tecnologias torna-se fundamental para decidir qual o melhor tratamento das hepatites virais"

 1.   Como os gestores podem estar mais preparados para auxiliar na tomada de decisão do melhor tratamento disponível?

Fernando Wolff – É fundamental entender a história natural das hepatites virais para planejar as tomadas de decisão. Por história natural, entenda-se a evolução da doença sem intervenção médica, especialmente no que se refere às hepatites virais crônicas B e C. Pensar em um horizonte de 10, 20 e até 30 anos é necessário, já que este é o tempo que estas doenças podem levar para desencadear suas consequências mais graves, como a cirrose e o câncer hepático. Se pensarmos em prazos menores, corremos o risco de não ver quais tratamentos, aparentemente caros, podem ser econômicos, sem contar o aspecto humano de evitar a progressão da doença. Como a evolução do conhecimento tem sido muito rápida, a avaliação critica das novas tecnologias torna-se fundamental para decidir o que vai e o que não vai ser incorporado no tratamento. Além disso, o aconselhamento com especialistas pode colaborar no "ajuste fino"  do uso das evidências à prática médica.

2.    Como a Avaliação de Tecnologia em Saúde (ATS) pode auxiliar no combate a hepatites?

FW - A hepatologia - área da medicina que estuda e cuida de doenças relacionadas ao fígado, em especial na área das hepatites virais - tem incrementado muito a quantidade e a qualidade das evidências disponíveis para prevenção e tratamento das hepatites virais. Novos medicamentos e novos esquemas de tratamento com fármacos já existentes estão surgindo e precisam ser comparados com as "tecnologias" em uso. Entretanto, somente a avaliação precisa e isenta destas novas tecnologias estabelecerá a quais pacientes os novos tratamentos devem, prioritariamente, ser oferecidos, utilizando-se critérios de eficácia, redução de efeitos adversos e custo. Assim como os tratamentos, as estratégias de prevenção e de identificação de novos casos também devem ser testadas e avaliadas à luz da medicina embasada em evidências.

3.    O Ministério da Saúde oferece vacina contra a hepatite A e B, que outros procedimentos de prevenção e combate podem ser oferecidos dentro da rede pública?

FW - A prevenção passa pelo constante esclarecimento da população sobre as formas de transmissão dessas doenças. Cabe aos profissionais da saúde aproveitarem o contato com o paciente, muitas vezes motivado por outras causas, para revisar o status vacinal e considerar a vacinação quando necessária. Em relação às hepatites A e B, como grande parte da população ainda não é vacinada, o estímulo  à disponibilização da vacina em populações de risco é uma estratégia a ser desenvolvida.
Em relação à hepatite C destaco dois pontos: o primeiro é o estímulo ao diagnóstico, ou seja, indivíduos potencialmente expostos ao vírus precisam ser testados. Incluem-se nesse grupo qualquer pessoa que tenha recebido transfusão de sangue ou hemoderivados antes de 1993, usuários de drogas injetáveis, pacientes em hemodiálise, portadores do HIV e filhos de mães com hepatite C. Além destes, pessoas expostas a materiais biológicos contaminados, incluindo os próprios profissionais da saúde e “cuidadores” de pacientes com vírus. O segundo ponto é a ênfase na prevenção, isto é, as pessoas precisam saber que mesmo quantidades invisíveis de sangue, presentes em lâminas de barbear/depilar, alicates/afastadores de cutícula e escovas de dente, podem transmitir o vírus. Sendo assim, estes objetos precisam ser de uso individual ou adequadamente esterilizados.


4.    A hepatite C não tem vacina, há estudos ou outros procedimentos dentro da ATS, que indiquem um melhor tratamento?

FW - A cura da hepatite C é hoje uma realidade para a maioria dos portadores do vírus. Casos que até poucos meses atrás teriam baixa probabilidade de resposta ao tratamento, como o de portadores do genótipo 1 do Vírus da Hepatite C  (o mais comum no Brasil, atingindo cerca de 70% de todos os infectados e considerado o tipo mais resistente ao tratamento), têm hoje altas taxas de cura com as novas drogas (boceprevir e telaprevir) recentemente incluídas no arsenal terapêutico. Estudos publicados ao longo do último ano demonstraram claramente o benefício da adição de um desses agentes antivirais ao interferon peguilado e ribavirina no tratamento dos portadores do genótipo 1, especialmente, em pacientes que não apresentam melhora com o tratamento padrão. Entretanto, o tratamento segue não sendo necessário em uma parcela de pacientes sem evidência de lesão significativa no fígado.




Jornalista responsável: Bruna Repetto