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22/03/2012

Mulheres mais jovens têm mais propensão a ter “infartos silenciosos” (sem dor no peito) e um maior índice de mortalidade do que homens

Com ou sem dor, o infarto é uma das principais causas de mortes no Brasil. Conforme dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a doença é responsável por 27% das mortes no país, um índice que é superior ao de mortalidade por câncer. A dor no peito, um dos principais sintomas de infarto, pode não se manifestar em mulheres à beira de um ataque cardíaco. A descoberta recente de pesquisadores norte-americanos foi detectada após a análise de mais de um milhão de pessoas que sofreram com o problema no coração. A investigação deu origem a um estudo publicado no mês passado no Jornal da Associação Médica Americana (JAMA). A cardiologista Carisi Anne Polanczyk, chefe do Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Coordenadora do IATS, esclarece algumas questões sobre o tema.

IATS News - Índices mostram que o número de mulheres vítimas fatais de um infarto é 50% maior que o de homens. Todos os anos, 31000 brasileiras morrem infartadas, o triplo das mortes por câncer de mama. Quais as principais causas destes números?

Carisi Polanczyk - Mulheres infartadas, especialmente as mais jovens sem os sintomas clássicos de dores no peito, adiam a ida ao pronto-socorro e, por isso, morrem mais que os homens. As mulheres que apresentam doenças cardiovasculares e fatores de risco (tabagismo, obesidade, sedentarismo e histórico familiar de doenças coronárias) se cuidam menos que os homens, que parecem estar mais atentos a qualquer desconforto e procuram assistência médica mais rápido.  Por causa do maior número de infartos sem dor no peito, o número de mulheres vítimas fatais de um infarto, especialmente as mais jovens,  é maior que o de homens. O sexo feminino sofre com o "infarto silencioso", quando os sinais da doença são camuflados, médicos e pacientes podem subestimar o problema, adiando o diagnóstico e, consequentemente, o seu tratamento.


IATS News - Como podemos identificar o “infarto silencioso”?

CP- A pessoa não precisa esperar por uma dor, mas sim se houver um desconforto que persistir por mais de 10 ou vinte minutos, deve procurar um médico. O infarto pode provocar mal-estar de baixa ou média intensidade, atingindo, sobretudo, as costas, o estômago e as mandíbulas. Muito diferente dos sintomas clássicos do infarto em homens, que são dor aguda no peito, com irradiação para um ou os dois braços e suor frio intenso. O infarto sem sintomas clássicos é mais comum em pacientes idosos, mulheres e portadores de diabetes.

IATS News - Por que as mulheres são mais propensas? Quais as fragilidades e as peculiaridades do coração feminino?

CP- As peculiaridades do coração feminino entraram no radar dos cardiologistas a partir de 2004, quando a Associação Americana do Coração divulgou as primeiras cartilhas para o diagnóstico e a prevenção de problemas cardíacos entre as mulheres. A mais recente delas, de 2011, propõe mudanças nos protocolos de tratamento, ressaltando que as mulheres são mais vulneráveis que os homens. O risco de uma mulher fumante sofrer um infarto é o dobro do de um homem com o mesmo vício. As diferenças anatômicas e funcionais entre o coração da mulher e o do homem explicam a maior fragilidade feminina. Há de levar em conta ainda os perigos a que só elas estão sujeitas, como a menopausa. Nas mulheres, acredita-se que a dor seja “abafada” por questões hormonais. Nos portadores de diabetes, as alterações na sensibilidade dos nervos (neuropatia) podem ser uma das explicações.

IATS News - Qual o índice de infartos desse tipo registrados? Isso agrava o número de óbitos em mulheres?

CP- Em decorrência da falta de sintomas específicos, as mulheres levam, em média, justamente três horas para procurar ajuda. Além disso, muitas ainda descrevem o mal-estar como suspeita de gastrite ou má digestão. Não é raro uma mulher em processo de infarto receber o diagnóstico de falta de ar. Muitas vezes, a mulher se expressa de uma forma, que acaba retardando o diagnóstico, como queixas de estresse, tabagismo ou problemas familiares. As mulheres ficam mais doentes, porque retardam o atendimento. O que muitos não sabem é que aproximadamente 20% dos casos de infarto são do tipo silencioso. Ou seja, ocorre o ataque cardíaco, mas a pessoa só tem os sintomas de pós-infarto.

IATS News - O que os gestores de saúde devem saber para que possam auxiliar a tomada de decisão e encaminhar o melhor procedimento em casos de suspeita de infarto?

 CP- O atendimento a um infartado, mulher ou homem, é sempre uma prova de velocidade. Quanto mais tempo o coração fica sem receber oxigênio, maior o volume de músculo cardíaco lesionado. Os mais recentes protocolos de atendimento preconizam que os exames e o tratamento devem ser realizados na primeira hora depois do início do infarto.  É preciso ficar atento para os outros sintomas característicos da doença, como a sensação de angústia, falta de ar, náusea e o suor repentino. É importante que os gestores entendam as diferenças, esta pesquisa traz um novo conhecimento, indicando que o quadro clássico de dor no peito não acontece em pessoas que têm o chamado “infarto silencioso” ou “sem dor”. Além disso, as mobilizações envolvendo a saúde da mulher não devem se ater somente ao câncer de colo de útero e mama, os problemas cardíacos representam uma grande parcela de óbitos no país.


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Jornalista responsável: Bruna Repetto