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09/11/2011

“A vacina contra o HPV só deveria ser introduzida no SUS quando for possível garantir o acesso à tecnologia a todos”, afirma Maria Novaes

O câncer do colo do útero, também chamado de cervical, demora muitos anos para se desenvolver. O principal fator que pode levar a esse tipo de câncer é a infecção pelo papilomavírus humano, o HPV, com alguns subtipos de alto risco e relacionados a tumores malignos. É o segundo tumor mais frequente na população feminina, atrás apenas do câncer de mama, e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil.

A pesquisadora e coordenadora do Departamento de Medicina Preventiva da USP, Hillegonda Maria Novaes, fala do papel da vacina, ainda não aprovada no Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, na prevenção da doença.

IATS News - Qual a importância da vacinação (para mulheres e homens) contra o câncer do colo de útero?

Hillegonda Maria Novaes - A vacina contra a infecção pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV) tem mostrado nos ensaios clínicos elevada eficácia na prevenção da infecção em pessoas que ainda não tiveram contato com o vírus, bem como uma segurança bastante satisfatória. Alguns dos tipos de HPV são reconhecidos atualmente como a causa necessária, mas não suficiente, para o desenvolvimento de câncer de colo de útero, e é nessa perspectiva que a vacina tem sido reconhecida como uma intervenção que poderá contribuir de forma importante no combate a incidência e mortalidade pelo câncer de colo de útero.
A introdução da vacina no mercado mundial é relativamente recente (2004/2005) e como o tempo entre a infecção persistente pelo HPV, o desenvolvimento de lesões pré-cancerosas e o câncer é geralmente longo, entre 15 a 30 anos, a confirmação do impacto sobre a epidemiologia do câncer do colo de útero em perspectiva populacional ainda não pode ser constatada. A proposta de vacinação para homens, na prevenção desse câncer, se baseia na justificativa da busca sobre o impacto da transmissão do vírus.
 

IATS News - Para quem é indicada?

HMN – Mas duas vacinas atualmente existentes no mercado, Cervarix (GSK) e Gardasil (MSD), foram aprovadas pela ANVISA para serem aplicadas em mulheres entre 9 e 30 anos e, mais recentemente, também em homens. Ambas as vacinas protegem contra a infecção pelos vírus tipos 16 e 18, que mundialmente estão presentes em até 70% dos casos de câncer de colo de útero, e a vacina Gardasil também protege contra infecção pelos vírus tipos 6 e 11, associados com as verrugas ano-genitais. A maioria dos 30 países, que introduziram a vacina no seu programa nacional de imunizações, aprovou a sua aplicação em meninas entre 9 e 12 anos, em três doses. Nos estudos de avaliação econômica realizados com as duas vacinas esse esquema vacinal foi considerado como sendo potencialmente o mais custo-efetivo. Como o HPV tem sido identificado como elemento importante na cadeia causal de outros cânceres (anal, peniano, oro-faringe, etc), vem sendo proposto na literatura internacional diferentes esquemas de vacinação, e iniciados múltiplos ensaios clínicos, mas essas linhas de investigação, extremamente relevantes, ainda estão em fase mais preliminar quando comparada ao câncer de colo de útero.
 
IATS News - A imunização contra o HPV deveria estar disponível pelo SUS? Por quê?

HMN - A vacina contra o HPV ainda não foi aprovada para fazer parte do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. Juntamente com as instâncias estaduais e municipais, o PNI é o responsável pela implementação nacional e operacionalização do calendário de vacinações público. Desde 2005, foram introduzidas 4 novas vacinas no programa – rotavirus, pneumocócica, meningocócica conjugada C e influenza H1N1- e os recursos investidos no programa de imunizações nacional aumentaram exponencialmente, além de exigirem novos desafios operacionais. Estão sendo previstas a introdução de novas vacinas, estando em análise as vacinas contra a hepatite A, a varicela e a substituição da vacina contra a poliomielite Sabin pela Salk. A implementação da vacinação contra o HPV, a ser ministrada em meninas em faixa etária entre 9 e 12 anos, exigiria a adoção de novas rotinas operacionais nos serviços de imunização, além do possível envolvimento das escolas. O custo das vacinas, inicialmente muito elevado, diminuiu bastante, e foram recentemente cotadas nos Fundo Rotatório da Organização Panamericana da Saúde/OPAS com preços entre 14 e 15 dólares, mas mesmo esse preço implica investimentos bastante elevados para o PNI. Uma das diretrizes fundamentais do SUS, e também do PNI, é a equidade, ou seja, garantir o acesso à tecnologia a todos, e a vacina contra o HPV só deveria ser introduzida no SUS quando for possível garantir isso, bem com a sua efetividade e eficiência relativa às outras tecnologias essenciais. 
 
IATS News - Qual a diferença entre a vacina e o exame Papanicolau na prevenção contra este tumor?

HMN - São tecnologias que atuam de forma distinta sobre a epidemiologia do vírus HPV e do câncer: a vacina previne a infecção de alguns tipos de vírus HPV oncogênicos, o programa de rastreamento do câncer de colo de útero, que tem o exame Papanicolau como tecnologia nuclear, mas não única, tem por objetivo identificar o mais precocemente possível lesões reconhecidas como sendo provavelmente pré-cancerosas (0e casos de câncer ainda não diagnosticados) e que, quando tratadas precocemente e de forma adequada, interrompem esse processo evolutivo. O fortalecimento em perspectiva nacional do Programa de Controle do Câncer de Colo de Útero é essencial, pois os níveis atuais de incidência e mortalidade por esse câncer no Brasil são muito mais elevados do que em países em que esse programa está adequadamente implantado. Deve ficar claro que, mesmo com a introdução da vacina contra o HPV, o programa de rastreamento continuará tendo um papel fundamental para as mulheres que não são elegíveis para a vacinação, a maioria das mulheres nos próximos 15 a 20 anos, bem como as mulheres que receberam a vacina, considerando-se que não há prevenção contra a infecção pelos demais tipos oncogênicos nas vacinas atualmente existentes. 
 
IATS News - O que o gestor deveria saber a respeito de procedimentos, diagnóstico e tratamentos adequados?

HMN - A compreensão adequada do gestor de todas as questões que dizem respeito à vacina contra o HPV é muito importante, pois trata-se de um problema extremamente complexo, e para o qual são divulgados novas descobertas científicas a todo momento, além de se observar o envolvimento de muitos e diferentes grupos de interesse na discussão sobre o tema, em diferentes instâncias.



Jornalista responsável: Bruna Repetto