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08/08/2011

Pesquisa mundial recente indica a possibilidade de prevenção do HIV através de medicamento, reduzindo o índice de infecção

Dois novos estudos científicos revelaram que a ingestão diária de comprimidos do medicamento Truvada, uma associação de emtricitabina e tenofovir, evitou que homens e mulheres heterossexuais da África fossem infectados com o vírus HIV. “Estas descobertas impõem à saúde pública um desafio diferente no sentido de criar formas de incorporar estas estratégias medicamentosas sem correr o risco do uso indevido ou irracional” explica o pesquisador do IATS e Professor da Faculdade de Medicina da UFRGS, Ricardo Kuchenbecker.

1. Qual a importância desses recentes estudos e quais os principais desafios decorrentes?
 
Ricardo Kuchenbecker - As pesquisas divulgadas mostram a possibilidade de prevenção através de medicamentos, reduzindo o índice de infecção mesmo em situação de alto risco. Se o indivíduo utilizar o remédio nas primeiras horas, ele poderá diminuir substancialmente o risco de infecção. Estas descobertas impõem à saúde pública um desafio diferente no sentido de criar formas de incorporar estas estratégias medicamentosas sem correr o risco do uso indevido ou irracional. É preciso evidenciar esta relação de custo-benefício e efetividade da introdução dessa nova estratégia, o que significa para os gestores um desafio adicional em relação ao tratamento de uma das principais epidemias da humanidade. Se não utilizada adequadamente, há controvérsias se o uso destes medicamentos possa banalizar as estratégias de prevenção, onde a população deixa de utilizar preservativos.


2. A descoberta alimenta esperanças de que um dia haverá uma proteção médica contra o HIV?

A curto prazo, entre 5 e 10 anos, não se tem indícios de que teremos vacinas efetivas que previnam contra o vírus, os estudos envolvendo este método ainda são limitados. No entanto, há um caso recente, em que foi possível erradicar o vírus. Um homem com leucemia, que havia feito transplante de medula óssea e estava sob tratamento de quimioterapia e terapia antirretroviral acabou apresentando-se “curado” do vírus, mas ainda não há evidência científica de que isso possa significar uma cura.


3. No Brasil, a evolução de pesquisas e ações nessa área acompanha o ritmo internacional?

O Brasil tem acompanhado muito bem o ritmo internacional, mas não é um processo fácil, os custos são muito elevados. O programa de atendimentos à AIDS dentro do SUS está entre um dos melhores do mundo. Hoje no Brasil, temos uma população de 190 mil soropositivos em tratamento, sendo que o desafio de parte desta população, que está no 2° e 3° esquema de tratamento (soropositivo há mais anos),  precisa de novos medicamentos constantemente e introduzir estes remédios de maneira sustentável é o desafio.

A recente decisão internacional entre a Unitaid (fundo mundial para a compra de remédios por países pobres) e as indústrias farmacêuticas permitiu que países subdesenvolvidos produzam o Truvada. O Brasil ficou de fora da relação de países e a Índia será o principal país na produção do medicamento. Chama à atenção a importância que os interesses econômicos têm na definição das agendas prioritárias de saúde pública.


Jornalista responsável: Bruna Repetto