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16/11/2009

Saúde: boas notícias, um alento, uma esperança - Por Marcos B. Ferraz

Como é agradável ler boas notícias, elas transmitem esperança! Um aspecto que mereceum olhar crítico é o processo que envolve a divulgação de dados e informações, a sua atribuição e a apropriação dos benefícios da divulgação.
A área da Saúde se constitui num exemplo, com boas e más notícias. Más notícias que retratam o sofrimento do brasileiro em busca da assistência à saúde. Boas notícias que evidenciam o desenvolvimento técnico-científico e o potencial alívio para alguns dos males.
 
A falta de um planejamento de longo prazo do sistema de saúde, no entanto, nos impõe um ônus brutal para as futuras gerações. A ausência de definição de objetivos e metas claras (transparentes e conhecidas) a serem atingidas ameaça nosso sistema de saúde. A mentalidade política de curto prazo (talvez dois anos, considerando-se o descanso pós-eleitoral e o esforço pré-reeleição) e a constante necessidade de apagar incêndios podem justificar a ausência ou explicitação das mesmas.
A redução do número de casos detectados de tuberculose, a redução do número de gestantes adolescentes e o aumento da expectativa de vida da população são exemplos recentes de boas notícias. Ilustram o uso de informações em nosso ambiente e a não divulgação, ou ausência, das metas e dos objetivos a atingir.
 
A primeira reação é de satisfação. Sem dúvida, há menos brasileiros afetados por doenças ou condições específicas. Por seu lado, será que as reduções nos indicadores foram próximas das desejadas à luz da infraestrutura existente e das políticas públicas do nosso sistema de saúde? É difícil avaliar se o objetivo foi ou não alcançado sem se saber quais foram as metas definidas para o período.
Temos metas definidas? Quais são elas para os próximos cinco ou 10 anos? Tais indicaçõessão para a definição e assunção de um compromisso coletivo que precisa ter um responsável. Num ambiente com escassez de recursos, somente poderemos avaliar se os recursos investidos são justificados se propiciarem um ganho de saúde esperado e satisfatório. Com resultados claramente expressos e objetivos alcançados, a sociedade reconhecerá e desejará investir mais em saúde.
 
Outro aspecto a ser observado é a paternidade da boa notícia, desde que minimamente justificada. No que tange à apropriação, a lógica inferencial nos diz que tal melhora dos indicadores e da saúde seja devida e atribuída majoritariamente ou unicamente às ações do sistema de saúde. Será? Em parte, pode ser. Porém, essa é uma interpretação simples e parcial. Provavelmente a melhoria dos diversos indicadores deve ser atribuída a um conjunto de iniciativas que inexoravelmente concorrem e influenciam a sociedade e o sistema de saúde.
As ociedade, o sistema de saúde e os cidadãos participam de um processo complexo e involuntariamente envolvente: o desenvolvimento socioeconômico e educacional.Somos influenciados por fenômenos globais graças à tecnologia da informação e comunicação. A saúde não está isenta ou à parte desse processo. Nesse cenário, provavelmente a apropriação da boa notícia deva ser compartilhada com diversos setores da economia que, ao longo dos anos, têm proporcionado um ganho de bem-estar coletivo.
 
Nas últimas décadas, investimentos feitos nas áreas de educação, saneamento básico, alimentação e habitação talvez tenham sido mais relevantes e causadores da redução das doenças hoje observada, quando comparadas às políticas públicas desaúde. Essa afirmação, já documentada em países desenvolvidos, equivocadamente não merece realce de nossos líderes, pois desvaloriza feitos hoje atribuídos exclusivamente ao sistema de saúde. Mais uma vez a ausência de dados e informações disponíveis em nosso meio não nos permite melhor conhecer osfatores que contribuíram para a eventual boa notícia. Sem essas informações não há como julgar a alocação de recursos entre diversos setores que competem pelo seu uso.
Numa visão de futuro que considere uma alocação racional dos escassos recursos públicos, é imprescindível que a informação e o conhecimento sejam utilizados a favor da sociedade. E mais: o sistema de saúde necessita de uma visão de longo prazo. Precisamos também definir objetivos e metas e, de fato, não apenas medir os resultados alcançados, mas compreendê-los para que decisões futuras sejam orientadas e justificadas pelo melhor conhecimento disponível. Para tanto, é crítico que a sociedade e suas lideranças não se satisfaçam com visões parciais das boas notícias, o que pode favorecer interesses particulares, mas não os da sociedade.

fonte: Correio Brasiliense